Estando o sultão de Cambaia [Madrefaxa, avô do sultão Bahadur] um dia sentado à porta da tenda, passando um milhano voando pelo ar, deu uma tolhedura, a qual lhe caiu na cabeça, e como os Mouros tenham muito respeito a qualquer leviandade destas, reduzindo-as a futuros efeitos, este rei, muito agastado, bradou, dizendo: Não haverá quem mate aquele milhano? Ninguém pôs nisso cuidado, por quão longe a dita ave já ia, senão um tártaro de nação que no exército ganhava seu soldo, por nome Melequeliaz, o qual ouvindo o que el-rei dizia, conquanto já viu o milhano mui afastado, confiado em sua força e destreza, pôs uma frecha no arco, atirou-lhe, e tão bem a guiou que veio o milhano ao chão atravessado na frecha. Muito satisfez a el-rei o tiro, por se haver por livre de algum mau prognóstico, que dali podia inferir; e, agradecendo ao tártaro a diligência que pôs em o servir . E desejando-lhe fazer mercê, sendo-lhe do dito Melequeliaz pedida aquela ilha de Diu, com sua povoação, não somente lhe deu o que lhe pedia, mas também houve por bem que na terra firme houvesse duas ou três léguas, quanto se estendia a mesma ilha.
(O Primeiro Cerco de Diu, por Lopo de Sousa Coutinho que nele tomou parte)
IV
Enquanto não conheceres o Inferno, o Paraíso não será bastante bom para ti
(árabe)
No fim deste ano de 1534, veio el-rei Humaium Padixá, filho de Baber Padixá, – queira Deus iluminar a câmara de ambos! – já rei de Deli, sobre o Guzerate, destruiu algumas das suas cidades, e desbaratou Bahadur Shāh. Este, receoso de Humaium, mandou pedir auxílio aos franges, que se apressaram a dar-lho, depois que por um tratado de paz lhes foram cedidos alguns portos, como Baçaim, Bombaim e outros mais, de que tomaram logo posse com todas as povoações e terras em roda.
Os franges auferiram grandes vantagens destas possessões, e engrandeceram o seu poderio, sobretudo com a posse de Diu, onde dominaram com toda a autoridade, recebendo metade dos impostos, a qual eles enobreceram e fortificaram. Os franges havia muito que cobiçavam a sua posse, e tentaram-no por diferentes vezes no tempo de Melique Iaz e no de seus filhos, mas sem êxito, graças a Allah todo poderoso.
Porém, quando a vontade deles se encontrou com a vontade de Allah, não lhes foi difícil; depois Allah glorioso e excelso entregou nas suas mãos a força, e eles mataram [Bahadur] e deitaram o seu corpo ao mar. Certamente nós pertencemos a Allah e a ele havemos de volver! A vontade de Allah é o destino decretado por ele! A sua morte foi a treze de Fevereiro do ano de 1536. E depois da morte d’el-rei Bahadur Sh-ah eles senhorearam completamente Diu, porque assi o determinou Allah todo poderoso e omnisciente, cujos decretos são inevitáveis e a sua vontade invencível.
(O Mimo do Campeão da Fé, de Zinadim, manuscrito do séc. XVI)
– É Diu! Por fim chegámos! – brada Bento Castanho.
Fernão acerca-se do homem que lhe matara enfado da navegação com as suas histórias e sorri com a ideia de que talvez um dia se venha a cruzar com Diogo Botelho Pereira, em qualquer porto dos sete mares por onde os portugueses navegavam, pois ouvira dizer que ele se achava de novo na Índia.
– O mar anda tão afumado esta noite – resmunga o mestre – que mal se enxerga a costa!
O capitão Jorge Fernandes Taborda dá ordem para chegar a nau bem a terra, a fim de saber algumas notícias, porque homem prevenido vale por dois e havia demasiados rumores da presença da armada dos turcos. Fernão lamenta a chegada da noite que o impede de ver Diu do lado do mar. Fora o primeiro porto da Índia que pisara, no ano de trinta e sete, e gostara logo da cidade, cercada por muralhas e fosso que a ligavam à imponente fortaleza de S. Tomé, a mais forte e inexpugnável de todas as fortificações que se fizeram na Índia.
Construída na ponta de Diu – cortada da terra firme por um rio de água salgada, formando uma ilha de duas léguas de comprimento e meia légua na parte mais larga –, a fortaleza estava protegida do lado do poente por recifes que não permitiam a passagem de navios; do levante, tinha um bom porto para a entrada de grandes naus de carga e de guerra, em frente do qual ficava a fortaleza de Baçaim, para lhe dar apoio em caso de necessidade.
De forma triangular, as muralhas estendiam-se até ao cimo da colina e de novo seguindo a direito até ao rio, por três grandes baluartes44 e duas torres, com a entrada de rosto para a cidade. Desse lado mais vulnerável, os muros com peitoril estavam protegidos por uma funda cava e, da banda do mar, a defesa era assegurada pela própria natureza, com uma penedia altíssima e escarpada. Dentro da fortaleza havia casas para seiscentos homens, uma igreja do orago de S. Tomé e duas cisternas cobertas.
Ao longo da costa avistam-se inúmeros fogos e, de tempos a tempos, sons de artilharia que põem em sobressalto tripulantes e passageiros.
– Amainai o traquete – ordena o capitão, depois de tomar conselho dos seus oficiais e gente principal. – Pairaremos com pouca vela e ao amanhecer saberemos o que se passa.