– Juraram-me que esta erva apenas causa riso e um sono tão pesado que os que a tomam quando acordam não se lembram de nada do que se passou antes. Eu já tinha ouvido falar dela às nossas amigas gentias, porque as casadas de cá usam-na muito. – Acabou de ajeitar a cama e acrescentou: – Deixemo-lo dormir sossegadinho. Ide buscar os vossos pertences e despertar Diogo, porque os nossos salvadores não tardam aí para nos resgatar.

Tinham preparado a fuga durante a ausência de António, embora em contínuo sobressalto no temor de serem surpreendidas a qualquer momento por uma das suas entradas intempestivas que deitaria tudo a perder. De afastar os escravos se encarregara Mandeep, uma matrona gentia que Surendra Advani pusera a seu serviço e ela apresentara a António como necessária para as acompanhar e guardar nas suas saídas.

Iria pensou no mercador, nos riscos que corria ao ajudá-las e o seu coração encheu-se de gratidão. Ou de um outro sentimento que ela não ousava admitir, mas que a fazia ruborizar-se na sua presença, como uma donzela inocente, quando os seus olhos pousavam nela cheios de doçura. Tinham falado algumas vezes, sem ajuda dos intérpretes, porque tanto ela como as moças dominavam bem a língua corrente do Malabar. Surendra era pouco mais velho do que António e, tendo perdido a esposa havia cinco anos, não voltara a casar.

Tinham acabado de vestir os trajos masculinos que Iria tirara de uma arca, quando Mandeep veio avisá-las de que os seus salvadores as esperavam. Cobriram os cabelos com chapéus e gorras, agarraram nos emburilhos com o fato e disseram a Diogo que iam folgar numa chacotada, como ele podia ver pelos seus disfarces, mas às escondidas e sem ruído, a fim de não serem descobertos e tomados pelos bandos rivais.

Abandonaram a casa sem pena nem saudade. A noite sem lua oferecia alguma protecção e Iria só os viu quando Mandeep lhe assinalou o lugar onde se escondiam. Sentiu uma onda de calor a humedecê-la, quando reconheceu Surendra com os sobrinhos, que traziam dois soldados armados, enviados como reforço por Albuquerque. As casas do governador, onde teriam pousada e protecção, ficavam do outro lado da fortaleza.

– Correis grande risco – disse-lhe Iria, em voz baixa, ao modo de saudação. – António Real é muito rancoroso e vingativo.

– Tinha de vir com eles – disse-lhe o malabar com a voz quente e terna como uma carícia que lhe punha um formigueiro no corpo. – Não estaria sossegado em casa sabendo-vos em perigo.

– Partamos, sem demora – comandou um dos soldados, impaciente com as saudações trocadas entre os noivos. – As moças ainda não estão a salvo.

Puseram-se a caminho, sem se esconderem demasiado para não dar azo a suspeitas de malfeitoria; se os vissem passar assim em grupo, tomá-los-iam por um bando de amigos que saíam da casa de alguém, depois de uma boa ceia.

Surendra seguia ao lado de Iria e ela sentia-se segura na sua companhia.

– O casamento terá lugar amanhã de manhã na capela – informou o mercador –, em presença do senhor governador que servirá de testemunha. Será celebrado pelo seu capelão, pois D. Afonso de Albuquerque não confia no vigário.

Tinha razão em desconfiar de Diogo Pereira, que se pusera da parte de António, para contrariar os desígnios do governador. Chegaram a salvo ao seu novo porto de abrigo e Iria sorriu de alívio: com a protecção de Albuquerque e da sua nova família, as moças estariam finalmente a salvo dos predadores.

Quanto a ela e ao filho, logo se veria. Não pensava deixar Cochim, onde se sentia melhor do que em Portugal. A vida e o trabalho não a assustavam e conseguira juntar algum dinheiro nos sete anos que vivera como mulher do capitão da fortaleza. Sabia que podia contar com a ajuda de Surendra para se meter em negócios de tratos, de que conhecia todos os meandros e a gente certa para tudo o que necessitasse.

Haveria de criar o filho em Cochim, providenciar-lhe-ia uma boa educação, de modo a que Diogo pudesse subir na vida. Com a bênção de Afonso de Albuquerque, Iria alcançara também a sua alforria e encetava uma nova vida, ao entrar com um sorriso de confiança na torre que abria as pesadas portas para a acolher.

38 Livres, independentes.

39 Meninas escravas de várias raças, que se compravam ou cativavam nas guerras.

40 Leilão em hasta pública.

41 Ãdil Shãh, o Hidalcão das crónicas portuguesas era o sultão de Bijãpur, na Índia.

42 O rolo da massa.

43 Deutroa em alguns cronistas, uma planta cujas sementes em pó fazem dormir.

DIU

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