O resto da noite esfuma-se depressa e em desassossego, ninguém consegue dormir, de olhar preso no vulto da fortaleza que, no alvorecer, se torna a cada instante mais visível e nítido. Está cercada por uma multidão de galés e outros navios de velas latinas.

– É armada do reino, comandada pelo vizo-rei D. Garcia de Noronha! – alvitra alguém.

Em Ormuz, Fernão tivera notícia da chegada do vizo-rei da Índia, sobrinho do grande Afonso de Albuquerque.

– Não me parece – contraria o capitão. – Será talvez o governador Nuno da Cunha, vindo de Goa para fazer pazes com Mahmud, o novo sultão de Cambaia pela morte de Bahadur.

– Hão-de ser as fustas do Samorim de Calecut, sob o comando de Patih Marakkar, a cercar a nossa gente.

– O Samorim não tem destas galés! – exclama Bento Castanho, olhando para a barra, ansioso. – O que estais a ver é a armada dos rumes.

– Os turcos? – grita, assustada, a mulher do mercador de Cochim.

– Olhai! Que esquife é aquele?

O pequeno barco acercava-se tão veloz quanto lhe permitiam a corrente e a força que o homem imprimia aos remos. Com a roupa em farrapos, manchado de sangue e enfarruscado, parece um fugitivo negro, da casta dos intocáveis e da nau apontam-lhe os arcabuzes.

– Sou português! – brada o homem, mas os soldados não baixam as armas, e ele acrescenta impaciente: – Sou Tristão Gomes, bombardeiro. Os rumes tomaram a cidade e puseram cerco à fortaleza.

O nome parece familiar a Fernão, embora não reconheça o homem assim farrusco, nem sequer quando ajuda Bento Castanho, igualmente muito interessado nele, a içá-lo para a Cisne, porém, antes que chegue à fala com o capitão, os vigias dão o alarme. Cinco galés com grandes velas ou arrimões, em vez das bordadas mais pequenas, tinham largado do porto a todo o pano, com as suas bandeiras e os longos estandartes quarteados de verde e roxo a ondular, já bem visíveis na luz do sol que se erguia.

– São turcos – grita o bombardeiro – da Armada do Mar Roxo, comandada pelo capado Soleimão Baxá, que vieram ajudar os exércitos de Coja Çofar e d’el-rei de Cambaia. Ao todo, mais de vinte e cinco mil homens contra os nossos oitocentos, dos quais a maioria já está morta ou ferida, não havendo agora oitenta homens capazes de pegar em armas. Capitão, tendes de ir a Goa dar aviso ao vizo-rei. Se ele não vier já em socorro de Diu, perderá a fortaleza com a gente que a defende. No assalto ao baluarte, os fideputas deram-me por morto, mas o pelouro só me feriu e eu logrei fugir durante a noute. Como já não podia passar para a fortaleza, roubei este esquife a ver se apanhava algum catur45 dos nossos, que por vezes vêm espiar.

As galés avançam direitas à nau, que não é adversário para tamanho poder, e Jorge Fernandes manda logo desferir a vela grande para fazer a volta do mar:

– Rumo a Chaul, que o vento começou de se levantar. Fazei prestes e roguemos a Deus para que estas malditas não nos cacem.

A perseguição foi encarniçada e durou até ao anoitecer, estando a nau algumas vezes ao alcance das bombardas turcas e em grande perigo; por fim, com a mudança do vento, as galés desistiram e voltaram para Diu. Um coro de vivas, aplausos e barretes lançados ao ar saudaram o capitão e os hábeis matalotes a quem deviam a vida.

– Ufa! Vinham açulados que nem cinco cães a um osso.

– Safámo-nos desta vez, Deus seja louvado!

Ajoelhados na coberta, tripulantes e passageiros agradecem aos céus a sua salvação, rezando em coro um Padre-nosso e uma Salve-rainha. Dispersam-se em seguida para irem comer uma ceia que, embora parca, parece a todos um manjar de príncipe, por terem passado o dia em jejum, a medir com o olhar aflito a distância das galés perseguidoras, enquanto prestavam ajuda aos matalotes nas suas tarefas, rezando a todos os santos da sua devoção para os livrarem dos inimigos.

Nessa noite toda a gente, excepto os oficiais e matalotes de serviço, se há-de sentar na coberta para ouvir as notícias de Diu, que o bombardeiro Tristão Gomes se prestara a dar-lhes. Durante a perseguição dos rumes, Bento Castanho tomara o fugitivo resgatado a seu cargo e Fernão, embora se tivesse lembrado de como o conhecera no passado ano, nessa mesma fortaleza, estivera todo o dia ocupado nas lides das velas e cordoalha, sempre com o credo na boca, a imaginar-se outra vez cativo dos mouros, sem tempo sequer para se coçar, quanto mais para conversar.

Nas navegações que fizera até esse dia, nunca perdera as tertúlias de desenfadamento, que eram a melhor escola de vida para quem queria vencer na Índia, por nelas se ouvirem quer histórias de gentes e lugares quer as últimas novidades (por vezes velhas já de meses) ou ainda a leitura de algum livro de viagens sobre as Ilhas Afortunadas. Nessa noite, em particular, anseia pelo serão, para saber o que aconteceu aos seus companheiros da Frol de la Mar, com quem viera do reino para a Índia e que tinham ficado de serviço à fortaleza.

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