Assim prevenido, Nuno da Cunha enviou Diogo de Mesquita a Cambaia, onde estivera preso alguns anos e aprendera bem a língua, sendo muito estimado de Bahadur por lhe ter prestado bons serviços na guerra contra os mogores. Com o pretexto de informar o sultão da visita do governador, a sua verdadeira missão consistia em descobrir o que ele preparava contra os portugueses.

Mesquita soube pelos seus amigos de Cambaia que el-rei só falava em reconquistar a fortaleza de Diu e matar todos os cristãos. Um ódio confirmado pelo próprio Bahadur, a quem fizera desatar a língua com um vinho que lhe dera de presente.

Por ele soubemos das cartas que o sultão tinha escrito ao Nizamaluco50, ao Hidalcão e ao samorim de Calecut, seus aliados, queixando-se de que o havíamos enganado e lhe faltaram com o prometido socorro na guerra; na cidade, éramos mais nocivos que os mogores, porque roubávamos e matávamos os seus mercadores, ofendendo-o constantemente, pelo que determinava fazer-nos guerra sem tréguas, até nos acabar de todo. Rogava-lhes, em nome do profeta Mafamede, que fizessem o mesmo em todos os lugares onde os portugueses tivessem fortalezas.

44 O baluarte era uma obra defensiva, situada nas esquinas das muralhas e avançada em relação à estrutura principal de uma fortificação.

45 Muito parecido com o tone, é um pequeno barco a remos, como o bergantim, comprido, pontiagudo nos dois extremos, e fechado por cima, à vela ou com dez a vinte remos, que serve na pesca e na pirataria.

46 Grande canhão de bronze, construído em 1533 para o sultão Bahadur, e que hoje se pode ver no Museu Militar, em Lisboa.

47 Nome dado pelos portugueses a Mustafa Rumi Khan, o general turco comandante do exército do sultão Bahadur, desde 1527.

48 Soleimão I, o Magnífico, sultão otomano.

49 Asad Kha-n, dignitário de Adil Sha-h (Hidalcão), uma espécie de condestável do reino.

50 Buran Niz-am Mulk, sultão de Ahmadnagar.

Quando o gavião está seguro nas piós, quem o solta às vezes se arrepende

(português)

Canto I, de O Primeiro Cerco de Diu51

VII. Cambaia, reino grande e populoso,

Nas partes d’Oriente situado

Em riquezas e em armas poderoso,

Foi de sultão Bahadur senhoreado:

Príncipe mau, cruel, despiedoso,

Dos naturais e estranhos pouco amado,

Antes sempre em maior ódio crescia,

Cousa assaz natural na tirania.

XI. O sexo feminil, cuja fraqueza

Resiste mais que os duros peitos fortes,

Não pôde resistir a esta braveza,

Que se mantinha só de humanas mortes;

Pois também fez sentir sua crueza

Àquelas, cujas duras, tristes sortes

Com firme e conjugal nó lhe juntaram,

Que com seu próprio sangue desataram.

XIX. Este jugo cruel, d’homem alheio

Com que tratava ao que é estranho, e o que é sujeito

O pôs em tal cuidado, em tal receio

Que se velava mais do mais aceito,

O que tem de mercês e honras mais cheio

Lhe vem depois a ser o mais suspeito,

Porque a mortífera honra e a dignidade

Motivo é d’ódio, mais que d’amizade.

XXII. Nem somente do ferro temor sente,

Que a peçonha também lhe dá cuidados,

Isto lhe faz banhar continuamente

D’humano sangue, o bosque, o monte, o prado,

Porque ante ele nenhum era inocente

Que só numa suspeita era culpado,

Mas nem assi alcança o que procura,

Que nem com tantas mortes se assegura.

Nesse mesmo dia, Manuel de Sousa, o capitão de Diu, começou a reforçar a defensão da fortaleza, recomendando a todos que estivéssemos sempre prestes para o que desse e viesse. E o primeiro conflito não tardou a rebentar.

Só a duras penas tolerávamos a soberba dos mouros e turcos que viviam na cidade de Diu, os quais, seguros de não gozarmos do favor do sultão, cada vez que topavam connosco, faziam grande surriada e tratavam-nos como se fossemos cativos, cuspindo-nos e cobrindo-nos de injúrias. Já não saíamos sós da fortaleza porque, se apanhavam um de nós por ruas escusas, espancavam-no até o deixarem como morto. Manuel de Sousa não queria guerra e recomendava-nos muito para não respondermos às provocações nem retribuirmos as ofensas e nós obedecíamos, mas andávamos agravados e em sanha.

Um dia em que fui com nove companheiros montar guarda aos escravos que iam buscar água para encher a cisterna e lenha que havia mister armazenar, para o caso de nos porem cerco à fortaleza, cruzámo-nos com um bando de mouros arruaceiros e um deles fez menção de me dar uma bofetada. Eu que, mal os vira, tinha sacado disfarçadamente o punhal da bainha, enterrei-lho no peito, impedindo a agressão. Os parceiros do morto desataram numa grande berraria de “Mata! Mata!” e a bradar por socorro, fazendo acudir de todas as partes muitos mouros com pedras, espadas e punhais, que nos caíram em cima, matando três dos meus companheiros, apesar de nos defendermos com unhas e dentes.

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