– É bem capaz de nos convidar pra essa folia, como costuma fazer aos embaixadores estrangeiros pra mostrar coragem. E eu vou-me escusar, inda que me chame covarde. Era só o que me faltava, andar a pular no alto das ameias: se tenho de morrer que seja a combater.

O capitão foi em pessoa abrir-lhe o postigo e nós calámo-nos quando Bahadur entrou só com três homens e quatro pajens, mandando o resto da sua companhia ficar fora da fortaleza. Cambaleava e ria-se muito, contudo, ao ver os novecentos portugueses armados, cujas armas resplandeciam na claridade dos archotes, assustou-se e perguntou agastado:

– Porque se armam os portugueses para me receberem, sendo eu irmão d’el-rei de Portugal?

– Não estranhe, Vossa Alteza – dissimulou o capitão, contando com a sua vaidade –, os portugueses armam-se sempre para receber com muita honra os reis que entram nas fortalezas d’el rei de Portugal.

Bahadur tomou-o pela mão, rindo-se muito, e pediu:

– Capitão, dá-me de comer, que trago fome.

Entrou na casa em que pousava Manuel de Sousa e, deitando-se num esquife52, recostou-se nas almofadas e gabou com voz avinhada, por entre soluços:

– Tens umas belas casas, capitão!

– As casas, toda a fortaleza, eu e os demais portugueses são pertença de Vossa Alteza – disse-lhe Manuel de Sousa, que já me mandara trazer-lhes de comer e de beber.

– Bofé, amigo – repontou Bahadur com sanha –, esta fortaleza não é minha, mas d’el-rei teu senhor, e as casas são tuas!

Falou em português, pois já sabia bem a nossa língua, mostrando-se de novo irrequieto, às voltas no leito improvisado, como afrontado do vinho. De repente, pareceu esquecer-se do lugar em que estava e começou a murmurar frases sem sentido, com voz entaramelada, ora cantando, ora falando na sua língua:

– Portugueses ladrões! É dar-lhes, dar-lhes! Matar! Matar!

Os da sua comitiva estavam estarrecidos com o seu despropósito e falavam muito alto de modo a abafar-lhe a fala, para que nenhum de nós percebesse o que ele dizia, mas vendo que Bahadur se não calava, procuraram dissimular com risos e motejos:

– Não deveis fazer caso do que diz el-rei! Quando bebe, fica sempre assi, tão fora de seu siso que até diz doestos contra a sua mãe.

No entanto, não ousavam interrompê-lo e el-rei parecia não ter vontade de se calar.

– Capitão – bradou, semicerrando os olhos, erguendo o púcaro vazio para que lho enchessem –, se quiseres eu serei teu cativo e te encherei esta fortaleza de dinheiro pelo meu resgate, se não me fizeres mal.

Era uma provocação e os seus acompanhantes empalideceram ainda mais, decerto temerosos por Bahadur nos estar a meter na cabeça ideias tão tentadoras como perigosas.

– Senhor – retorquiu Manuel de Sousa, com voz risonha, temendo ver surgir algum conflito da parte da nossa gente –, esta fortaleza pertence-te e aqui somos todos teus cativos.

João Santiago, um renegado que lhe servia de língua, procurava amansá-lo, mas el-rei cuspia-lhe quando ele lhe falava, arrancando muitos risos forçados e zombarias à assistência. Alguns dos nossos que sabiam a língua tinham percebido tudo o que Bahadur dissera e chamaram o capitão à parte, de modo a Santiago não os ouvir:

– Capitão, não descureis as ameaças d’el-rei, porque é costume os bêbados falarem o que têm no coração.

– Cuidai bem nisto, que depois de perdida a boa ocasião vem tarde o arrependimento.

Manuel de Sousa entendeu que o instavam a matar Bahadur com todos os da sua companhia, mas aconselhado por mim e por outros da sua privança não consentiu, por ser traição e desonra para os portugueses, matá-lo naquele estado e dentro da fortaleza que o acolhera.

– Os portugueses já fizeram outras faltas e quebras de palavra na Índia, que nunca foram estranhadas porque os seus reis e grandes senhores o fazem entre si constantemente – ripostaram os do partido contrário.

– Calai-vos todos – ordenou o capitão em voz alta e com merencoria –, porque el-rei quer dormir!

Valeu-nos Deus, não permitindo que o matássemos, porque o Rao Medim, vendo como Bahadur viera ter connosco, bêbado e sem a sua guarda, seguira-o em segredo com muita gente armada e montara apertada vigilância a toda a volta da fortaleza, prestes para acometer ao primeiro som de rebuliço e luta. Contudo, por volta da meia-noite, Bahadur sossegou e foi-se em boa hora para os seus paços, amparado pela sua gente e o Rao, ao vê-lo sair de boa saúde e abraçado aos seus pajens, recolheu-se com a sua gente sem ser visto por el-rei nem pelos vigias da fortaleza.

No dia seguinte, tendo cozido a bebedeira, o sultão negou ter ido à fortaleza, estranhando muito que lhe dissessem o contrário. Coja Çofar, que nada sabia desta aventura, temendo que el-rei tivesse falado demais e dito algo de comprometedor para as suas ambições, mandou um criado avisar Manuel de Sousa para ter cuidado, porque, de noite, andara muita gente armada a rondar-lhe a fortaleza.

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