Quando o mensageiro lhe deu a notícia, nos paços da cidade, Bahadur mandou recado a Manuel de Sousa, para que o levasse sem demora ao galeão a visitar o governador que vinha muito doente. O capitão, desconcertado com a sua afoiteza ou desvario, obedeceu, mandando avisar com muita urgência Nuno da Cunha que se preparasse para a real visita. O governador ficou igualmente engodilhado e, à pressa, convocou os oficiais e fidalgos da armada para virem vestidos com as suas melhores galas fazer o recebimento a el-rei no seu galeão, cuja tolda mandou cobrir com ricas alcatifas e coxins, dando ordens para que em todos os navios se hasteassem muitas bandeiras e estandartes.
Duzentos homens armados, dos quais setenta eram fidalgos principais, fizeram alardo no convés para saudar o sultão, porém, a pergunta que andava no ar era: – Vamos matar Bahadur? Vamos matar o traidor? Uns diziam que era essa a sorte que merecia o fementido, outros declaravam que vinha em visita de paz e cortesia, pelo que seria grande infâmia e ignomínia matarem-no ali.
Bahadur chegou numa pequena fusta, sem nenhuma pompa, vestido com um pano verde e uma touca preta, com um cris55 de ouro à cinta, como símbolo de realeza, porque as suas armas – um terçado e o arco com o coldre das flechas – eram transportadas por dois formosos moços que lhe serviam de pajens. Acompanhavam-no Manuel de Sousa e treze dos principais senhores do reino, entre os quais Coja Çofar com o seu genro, um portentoso janízaro que tinha a alcunha de Tigre do Mundo, por ser um grande lutador em muitas armas. Mais atrás vinham quatro fustas com os seus criados e oficiais.
O cortejo passou por entre toda a armada que o saudou com muitas salvas de artilharia, grandes aclamações, apitos e fanfarras de festa. Nuno da Cunha esperava-o ao portelo, de cabeça descoberta, vestindo uma loba aberta de chamalote, como quem se levanta da cama. Ao ver tanta gente armada, Bahadur empalideceu, como se só naquele instante se tivesse apercebido de que o governador sabia da sua traição e que ele se viera meter na boca do lobo.
– Se eu soubera quão maltratado estáveis pela enfermidade – disse, dominando o receio e tratando de assegurar a hospitalidade que lhe devia o governador –, eu vos mandara dizer para vos não levantardes da cama, mas já que assi foi, vamo-nos assentar na vossa câmara.
Agarrou-o por um braço e encaminhou-se para o castelo da popa, saudando alguns fidalgos que conhecia. Todos olhavam para Nuno da Cunha à espera do sinal para se lançarem sobre o sultão, porém, o governador desviou o olhar e levou el-rei para a sua câmara, juntamente com Langarcão, Aminacem, Coja Çofar, o Tigre do Mundo, o língua João Santiago e um dos pajens. A desconfiança e o medo haviam-se instalado no bando e durante a meia hora que estiveram dentro da câmara pouco falaram, ansiosos por se verem fora do galeão.
Manuel de Sousa, sabendo que Nuno da Cunha queria prender el-rei e não tivera tempo de concertar com ele o modo de o fazer, mandou o pajem do governador ir até à varanda da câmara perguntar-lhe à orelha o que devia fazer, o que o pajem cumpriu sem custo, pondo-se de joelhos por trás do seu senhor, que estava perto da varanda, para lhe dar o recado em segredo. Isto levantou suspeitas a Bahadur que levou a mão ao cris e o língua João de Santiago, que estava entre ambos, disse à pressa:
– Senhor, não ouçais recados, vede el-rei que vos fala!
Nuno da Cunha afastou o pajem com a mão, sem o ouvir, mas já Bahadur se erguia para se retirar, e o governador, apoiando-se no ombro de um dos seus capitães para mostrar quão fraco estava, acompanhou-o até ele embarcar com a sua comitiva, com grande sanha dos fidalgos que o queriam matar. O sultão entrou na sua fusta a gritar à chusma que remasse depressa para terra, partindo logo sem dar sequer tempo a Manuel de Sousa de embarcar com ele. O capitão meteu-se num catur, acompanhado pelo seu pajem e por Diogo de Mesquita, seguindo no seu encalço. No galeão toda gente mirava o governador à espera de uma explicação por tê-lo deixado partir a salvo.
– Vós que me olhais – disse-lhes agastado – metei-vos nessas fustas que estão a bordo e acompanhai el-rei. Fazei o que Manuel de Sousa vos disser.
Era o sinal esperado. O governador não quisera a infâmia de matar no seu navio o rei da terra que o visitava, desarmado e em roupagens de paz, porém no mar a situação era outra. Ainda o eco das suas palavras não se esbatera e já todos embarcavam onde calhava. Por sorte, meti-me na fusta de Lopo de Sousa Coutinho que tinha bons remadores e a quem ele esforçava para se porem a par do catur do capitão de Diu que, todavia, chegou primeiro ao barco de Bahadur.
– Dize a Sua Alteza – bradou Manuel de Sousa em alta voz a Santiago – que se passe a este meu catur, pois o governador manda que se vá à fortaleza.