– A morte d’el-rei foi merecida, porque nos fez traição – justificou, mostrando-se assaz magoado. – Quanto a vós, Coja Çofar, não deveis temer qualquer castigo, dano ou perda dos vossos bens. Volvei à cidade e sossegai os seus moradores, porque deles não hei razão de queixa e pesa-me muito que tenham medo aos portugueses. Dizei-lhes que nenhum mal receberão de nós, antes os defenderemos de quem os ofender. Como sois homem de grande crédito, dar-vos-ão ouvidos e eu vos farei governador da cidade.

Nuno da Cunha desconhecia, tal como o desventurado Manuel de Sousa e todos nós, quão fementido era Coja Çofar, uma verdadeira serpente que escondia o seu veneno no peito, enquanto tramava a perdição dos portugueses em Diu e outros lugares da Índia. Só o soubemos demasiadamente tarde, quando ele fugiu de noite com todas as suas mulheres e fortuna, recrutando muita gente armada. Juntou-se ao exército do novo rei de Cambaia, para servir de reforço à grande armada de Soleimão Baxá, a quem aconselhou que, antes de conquistar Goa, fosse tomar a fortaleza de Diu. Tanto quanto pude saber, foram estas as causas da vinda da armada dos rumes. Todavia, desse cerco donde salvámos Tristão Gomes, sei tanto como vós. Ele nos contará decerto o que por lá se está a passar.

Bento Castanho terminara o seu conto, mas a assistência não mostrava desejo de arredar pé e ir dormir.

– Vossa mercê contou esta história à maravilha, mas deixou um mistério por descobrir – lamenta-se a mulher do mercador, com um sorriso de desculpa.

– Qual? – pergunta o narrador em tom de zombaria. – Juro-vos que contei a história com toda a minudência e não me pesa a consciência de vos ter encoberto cousa alguma. Diga-me vossa mercê a sua queixa, para eu me poder redimir, emendando a falta.

– Vossa mercê disse que o capitão Manuel de Sousa nunca chegou a saber quem era o misterioso amigo que lhe dava avisos das traições de Bahadur, mas disse também que o havíeis descoberto. Não nos quereis revelar quem era?

Bento Castanho solta uma gargalhada bem-disposta.

– Tendes razão, por vossa vida! Como pude olvidar-me de um caso tão singular? Descobrimos quem era o nosso anjo da guarda nas casas d’el-rei, onde fomos com o governador para lhe confiscarmos o tesouro. Demasiado tarde, pois a sua mãe, as mulheres e as concubinas já tinham fugido de Diu e posto a salvo tudo o que havia de valor nos seus paços; aí achámos o Tiro de Diu, o celebrado basilisco do Turco. Então, chegou-se a Nuno da Cunha uma mulher ainda moça e formosíssima, acompanhada de um escravo eunuco de grande arcabouço, pedindo para lhe falar. Disse-lhe que era portuguesa e cristã e que, com grande risco da sua vida, avisara por mais de uma vez o capitão da fortaleza dos perigos e ciladas de Bahadur, a quem odiava por ter feito dela sua escrava e a ter dado por esposa ao língua João de Santiago. O governador levou-a para a fortaleza, concedendo-lhe muitas mercês, em paga da sua lealdade. Sempre a ouvi nomear por a Marquesa, não lhe conheci outro nome. E, deste modo, fica desfeito o mistério. Amanhã, se vos aprouver, Tristão Gomes tomará o meu lugar e fará o seu conto do cerco de Diu.

Aplausos e assobios premeiam o esforçado narrador e a assistência retira-se para preparar a comida e fazer as tarefas que lhes destinem para a noite, porque o vento começara de novo a soprar.

54 Vela que se enverga na carangueja (o pau que sobe além do mastro, preso à parte superior da vela) do mastro de ré em ocasião de mau tempo.

55 Cris ou cris – uma adaga característica da Malásia-Indonésia, que é ao mesmo tempo uma arma e um objecto espiritual ou simbólico, cuja essência pode influenciar a vida de quem a possui, podendo mesmo torná-lo invencível.

Um mosquito pode fazer sangrar o olho de um leão

(árabe)

Carta de D. João de Castro a el-rei D. João III:

A guarda e fortaleza com que V. A. há de sustentar e acrescentar o seu estado e ter a Índia pacífica, é uma grossa e bem aparelhada armada e três mil homens disciplinados na guerra que possam entrar nela quando cumprir; e desta maneira e não de outra alguma estará a Índia segura de nossos contrários.

Não será fora de propósito dizer-lhe a que achámos e ao presente está em esta sua terra. As galés e galeotas são tão velhas e mal reparadas que nenhuma delas é para atravessar este golfão e este mal é o menor que nelas há . Os outros navios são poucos, e esses alquebrados e quase podres; parece-me que ou a ralé dos governadores não era esta ou eram tão valentes que sem armada queriam triunfar dos Turcos.

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