Quando cheguei lá, encontrei-o a falar com o filho, por isso, fumei um charuto e esperei atrás duma árvore até ele ficar só. Mas, ao ouvir a conversa deles, toda a amargura que sentia veio ao de cima. Estava a impelir o filho para casar com a minha filha, sem se preocupar com o que ela pensava, como se ela fosse uma rapariga da rua.
Fiquei louco ao pensar que eu e tudo o que tinha de mais querido iam ficar em poder dum homem daqueles. Não podia eu desapertar o laço?
Já era um homem moribundo e desesperado. Apesar de ter a mente sã e de ser forte, sabia que o meu destino estava marcado. Mas a minha memória e a minha filha? Ambas podiam ser salvas se eu o pudesse calar. Foi o que fiz, Sr. Holmes. E fá-lo-ia outra vez. Pequei muito e tenho levado uma vida de martírio para pagar esse mal. Mas a minha filha ficar dependente deles, como eu, era o que nunca poderia suportar.
Matei-o com menos escrúpulos do que se ele fosse o animal mais revoltante e venenoso. O seu grito fez com que o filho aparecesse, mas consegui esconder-me no bosque, apesar de ter de voltar para apanhar o capote que deixara cair, ao fugir.
“Esta é a história verdadeira, senhor, tal e qual como se passou.”
"Bem, não sou eu que o vou julgar." - disse Holmes, quando o velho assinou as suas declarações. - "Espero que nunca estejamos expostos a tal tentação."
"Espero bem que não, senhor. O que pretende fazer?"
"Tendo em conta a sua saúde, nada. Já sabe que, em breve, terá de responder pelas suas ações, perante Deus. Vou guardar a sua confissão e, se McCarthy for condenado, serei forçado a usá-la. Se não, nunca será vista por qualquer mortal; e o seu segredo, quer vivo, quer morto, ficará salvo conosco."
"Então adeus" - disse o velho solenemente. - "Quando o leito da vossa morte chegar, será mais fácil de suportar pela paz que me deram."
Titubeando e tremendo imenso, saiu vagarosamente do quarto.
"Deus nos ajude!" - disse Holmes, depois dum longo silêncio.
- Porque é que o destino prega partidas aos vermes mais desprotegidos?
Nunca ouço casos semelhantes sem pensar nas palavras de Baxter e dizer:
"Ali, pela graça de Deus, vai Sherlock Holmes."
James McCarthy foi levado a Tribunal por força dum certo número de objeções levantadas por Holmes e submetido ao conselho de defesa. O velho Turner viveu por mais sete meses, mas já morreu; e há todas as indicações de que o filho e a filha de ambos venham a viver juntos e felizes ignorando a nuvem negra que repousa no passado dos pais.
**Fim**
as cinco sementes de laranja
Quando consulto minhas notas e recordações dos casos de Sherlock Holmes entre os anos 1882 e 1890, encontro tantos que se apresentam como estranhos e interessantes que não é fácil saber qual deles escolher ou qual deixar de lado. Alguns, entretanto, alcançaram publicidade através dos jornais, ao passo que outros não oferecem campo apropriado para salientar aquelas qualidades peculiares que meu amigo possuía em tão alto grau e cuja demonstração é o objetivo destas páginas. Alguns também frustraram seu raciocínio analítico, e seriam uma espécie de narrativa com começo, mas sem fim, enquanto outros foram apenas parcialmente esclarecidos com explicações, mas baseiam-se mais em conjecturas do que em provas absolutamente lógicas, como era tanto do seu gosto. Há, todavia, um desses últimos casos que se apresentou tão estranho nos seus pormenores e tão surpreendente nos seus resultados, que sou tentado a relatá-lo, a despeito de haver alguns pontos, relacionados com ele, que nunca foram e provavelmente nunca serão esclarecidos.
O ano de 1887 trouxe-nos uma longa série de casos de maior ou menor interesse, dos quais tenho os pormenores. Entre os cabeçalhos desse ano, encontro a história da aventura Paradol Chamber e da Sociedade dos Mendicantes Amadores, que possuía um clube luxuoso no porão de um depósito de móveis; os fatos referentes à perda do barco britânico Sophy Anderson; as aventuras singulares do Grice Patersons na ilha de Uffa, e, finalmente, o caso de envenenamento em Camberwell. Neste último, como devem estar lembrados, Holmes conseguiu, ao dar corda ao relógio do defunto, provar que a corda já havia sido dada umas duas horas antes e que, portanto, fora àquela hora que o falecido se deitara - dedução que era da maior importância para o esclarecimento do caso. De todos estes, hei de fazer um resumo qualquer dia; porém, nenhum deles apresenta feições tão singulares como a corrente de estranhas circunstâncias que agora me proponho descrever.