Em fins de setembro as tempestades equinociais haviam começado com violência excepcional. O vento zumbia o dia todo e a chuva tanto batia nas janelas que, mesmo aqui, no coração desta grande cidade de Londres, éramos forçados a afastar nossos pensamentos da rotina cotidiana e reconhecer a presença das grandes forças da natureza que atemorizam os homens, apesar de toda a sua civilização, como animais selvagens dentro de uma jaula. À medida que a tarde avançava, a tempestade aumentava mais e mais, e o vento gritava como uma criança na chaminé. Sherlock Holmes estava sentado tristemente ao lado da lareira, revendo suas anotações sobre crimes, enquanto eu, do outro lado, lia com interesse uma das velhas histórias marítimas de Clark Russell, a ponto de o grito da tempestade lá fora se confundir com a leitura e o barulho da chuva na janela se assemelhar ao clamor das ondas do mar. Minha mulher fora visitar uma tia, e durante alguns dias eu voltara a instalar-me nos meus aposentos da Baker Street.
- Ouça - disse eu, olhando para o meu companheiro -, parece-me que ouvi a campainha! Quem viria numa noite destas? Talvez algum amigo seu?
- Exceto você, não tenho nenhum - respondeu ele.
- Não gosto de visitas.
- Um cliente, então?
- Se for, é um caso sério. Nada faria um homem sair de casa numa noite e numa hora destas. Parece-me mais provável que seja algum amigo da proprietária.
Sherlock Holmes enganava-se nas suas conjecturas, porque ouvimos passos no corredor e uma pancada na nossa porta.
Ele estendeu seu comprido braço para dar volta ao interruptor do candeeiro que estava junto da sua cadeira e fez incidir a luz sobre a cadeira vazia onde deveria sentar-se o recém-chegado.
- Entre - exclamou ele.
O homem que entrou era jovem, de uns vinte e dois anos no máximo, bem-vestido, de aspecto distinto e cavalheiresco. O guarda-chuva molhado que trazia na mão e a capa impermeável provavam a violência da chuva. Olhou em volta ansiosamente e, devido à luz do candeeiro, pude notar que seu rosto estava pálido, os olhos cansados como os de um homem oprimido por grande preocupação.
- Devo pedir-lhes desculpas - lamentou ele, colocando o pincenê de ouro. - Espero não os incomodar; receio ter trazido alguns sinais da tempestade e da chuva para dentro da sua confortável sala.
- Dê-me sua capa e o guarda-chuva - pediu Holmes.
- Podem ficar aqui no bengaleiro para irem secando. Vejo que veio do sudoeste.
- Sim, de Horsham.
- Essa mistura de barro e gipsita que vejo nas pontas dos seus sapatos é muito característica.
- Vim pedir-lhe um conselho.
- É fácil de obter.
- E auxílio.
- O que não é tão fácil.
- Já ouvi falar a seu respeito, Sr. Holmes. Contou-me o major Prendergast como o salvou do escândalo do Tankerville Club.
- Ah, decerto. Fora acusado injustamente de ter roubado no jogo.
- Disse-me que o senhor poderia resolver qualquer problema.
- Ele exagerou.
- E que nunca foi vencido.
- Fui vencido quatro vezes... três vezes por homens, e uma por uma mulher.
- O que é isso em comparação com o número dos seus êxitos?
- É verdade que, geralmente, tenho sido bem sucedido.
- Então que o seja também comigo.
- Peço-lhe que puxe sua cadeira para mais perto da lareira e faça-me o favor de dar alguns pormenores do seu caso.
- Que não é comum.
- Nenhum dos casos que vêm ter comigo o são. Sou sempre o último a que recorrem.
- Em todo caso, duvido que, durante sua longa experiência, tenha ouvido relatar uma série de fatos mais misteriosos e inexplicáveis do que os que ocorreram na minha própria família.
- O senhor deixa-me curioso - disse Holmes. - Dê-nos os fatos essenciais desde o princípio, para que depois eu lhe possa perguntar sobre os pormenores que a mim pareçam de maior importância.
O jovem puxou a cadeira e estendeu os pés para a lareira.
- Meu nome - começou ele - é John Openshaw, mas minha vida, tanto quanto posso avaliar, pouco tem a ver com esses horríveis acontecimentos. É um caso de herança; quero poder dar-lhe uma idéia dos fatos que vou contar desde o início.