– Edith Baxter estava a 30 metros da cavalariça quando um homem surgiu da escuridão e mandou que ela parasse. Quando ele penetrou no círculo de luz amarelada da lanterna, ela notou que se tratava de uma pessoa com a aparência de um cavalheiro, vestindo um terno cinza de e boné de pano. Usava polainas e carregava uma pesada bengala de castão redondo. Mas ela ficou muito impressionada com a extrema palidez do rosto e com o seu nervosismo. Quanto à idade, achou que passava dos 30.
– “Pode me dizer onde estou?”, ele perguntou. “Estava quase decidido a dormir no pântano quando avistei a luz da sua lanterna.”
– “Está perto do haras de King’s Pyland”, respondeu a criada.
– “Verdade? Que sorte! Soube que um dos rapazes da cavalariça dorme sozinho ali todas as noites. Deve estar levando o jantar para ele. Tenho certeza de que não é orgulhosa a ponto de recusar um vestido novo, não é mesmo?” E tirando do bolso do colete um papel branco dobrado: “Entregue isto ao rapaz e terá o mais lindo vestido que o dinheiro pode comprar.”
– Assustada com a veemência dele, a moça correu até a janela pela qual costumava entregar as refeições. Encontrou-a já aberta, e Hunter estava sentado a uma mesinha, no interior. Tinha começado a contar a ele o que havia acontecido, quando o estranho tornou a se aproximar.
– “Boa-noite”, disse, espiando pela janela. “Gostaria de falar com você.”
– A moça jura que, enquanto ele falava, notou a ponta de um papel que saía da mão fechada do homem.
–“O que você quer?”, perguntou o rapaz.
– “Um negócio que talvez encha de dinheiro o seu bolso”, respondeu o homem. “Vocês têm dois cavalos inscritos na Copa Wessex – e . Dê um palpite e não sairá perdendo. É verdade que, no peso, poderia dar ao outro uma vantagem de 1/8 de milha em 100 jardas, e que o haras apostou tudo nele?”
–“Então é um daqueles malditos vendedores de palpites?”, perguntou o rapaz. “Vou mostrar o que fazemos com eles em King’s Pyland”. Levantando-se de um salto, atravessou correndo a cavalariça para soltar o cachorro. A moça fugiu para casa, mas, enquanto corria, olhou para trás e viu o estranho debruçado na janela. Um minuto depois, quando Hunter saiu com o cão, ele havia desaparecido e, embora o rapaz tivesse procurado em volta dos prédios, não encontrou nenhum vestígio dele.
– Um momento! – eu interrompi. – O rapaz deixou a porta destrancada quando saiu correndo com o cachorro?
– Excelente, Watson, excelente! – murmurou meu amigo. – A importância do detalhe me impressionou tanto que mandei um telegrama urgente a Dartmoor, ontem, a fim de esclarecer a questão. O rapaz trancou a porta antes de sair. Quanto à janela, não era suficientemente larga para permitir a passagem de um homem.
– Hunter esperou até que seus companheiros voltassem e mandou um recado ao treinador, contando o que havia acontecido. Straker ficou preocupado, embora aparentemente não tenha percebido o verdadeiro significado da ocorrência. Mas ficou vagamente inquieto, e a sra. Straker, acordando à uma hora, viu que ele estava se vestindo. Em resposta às perguntas da mulher, disse que não conseguia dormir, preocupado com os cavalos, e que iria até as cavalariças verificar se estava tudo em ordem. Ela suplicou-lhe que ficasse em casa, porque ouvia a chuva tamborilando nas vidraças, mas, sem dar ouvidos, ele vestiu um pesado impermeável e saiu.
– A sra. Straker acordou às sete horas e percebeu que o marido não tinha voltado. Vestiu-se depressa, chamou a empregada, e dirigiram-se para as cavalariças. A porta estava aberta; dentro, encolhido sobre uma cadeira, estava Hunter, mergulhado num estado de profundo estupor. A baia do favorito estava vazia e não havia sinal do treinador.
Os dois rapazes que dormiam no celeiro sobre a sala dos arreios foram despertados rapidamente. Não tinham ouvido nada durante a noite, porque ambos têm sono pesado. Hunter estava, obviamente, sob o efeito de alguma droga poderosa, e como não conseguissem extrair dele algo que fizesse sentido, deixaram-no dormir, e os dois rapazes e as duas mulheres saíram em busca dos desaparecidos. Ainda acreditavam na possibilidade de que o treinador, por algum motivo, tivesse levado o cavalo para um exercício matinal, mas ao subirem a colina próxima à casa, de onde se avista todo o pântano ao redor, não viram sinal do favorito, mas perceberam algo que os advertiu de que estavam diante de uma tragédia.