– A cerca de 500 metros das cavalariças, o sobretudo de John Straker pendia de um arbusto, balançando ao vento. Pouco adiante havia uma depressão circular no solo e no fundo dela encontraram o corpo do infeliz treinador. Tinha a cabeça despedaçada por um golpe violento desferido por um objeto pesado e estava com um ferimento na coxa, um corte longo e limpo, evidentemente causado por algum instrumento muito afiado. Mas era evidente que Straker tinha se defendido valentemente dos atacantes, pois segurava na mão direita uma faca pequena manchada de sangue até o cabo, e na esquerda uma gravata de seda vermelha e preta, que a empregada reconheceu como a usada na noite anterior pelo estranho que estivera nas cavalariças.
– Hunter, ao voltar a si do estupor, confirmou quem era o dono da gravata. Tinha certeza também de que o mesmo estranho, através da janela, havia colocado alguma droga na sua comida, deixando assim as cavalariças sem o seu vigia.
– Quanto ao cavalo desaparecido, havia provas abundantes na lama que cobria o fundo da depressão de que ele estivera ali no momento da luta. Mas desde aquela manhã continua desaparecido e, embora tenha sido oferecida uma grande recompensa a quem encontrá-lo e todos os ciganos de Dartmoor estejam alertados, não há notícias dele. Finalmente, uma análise mostrou que os restos da ceia ingerida pelo cavalariço contêm uma grande quantidade de ópio, embora o pessoal da casa tenha comido o mesmo carneiro sem qualquer efeito desagradável.
– Estes são os fatos principais do caso, sem o acréscimo de qualquer suposição, e narrados da maneira mais objetiva possível. Vou agora recapitular o que a polícia já fez em relação ao assunto.
– O inspetor Gregory, a quem o caso foi confiado, é um policial de extrema competência. Se fosse dotado de alguma imaginação, poderia alcançar os postos mais elevados da profissão. Ao chegar, logo descobriu e prendeu o homem sobre o qual recaem naturalmente as suspeitas. Não foi difícil encontrá-lo porque morava em uma das casinhas nas redondezas. Parece que seu nome é Fitzroy Simpson. É um homem bem-nascido e educado, que esbanjou a fortuna no turfe e agora se sustenta fazendo algum trabalho discreto e distinto de corretagem de apostas nos clubes esportivos de Londres. Um exame de seu livro revela que apostas no montante de 5 mil libras foram registradas por ele contra o favorito.
– Ao ser preso, declarou que fora a Dartmoor na esperança de obter informações sobre os cavalos de King’s Pyland e também sobre , o segundo favorito, que estava aos cuidados de Silas Brown, do haras de Mapleton. Não tentou negar que agira na noite anterior conforme haviam descrito, mas afirmou que não tinha más intenções. Desejava apenas obter informações diretas. Quando lhe mostraram a gravata, ficou muito pálido e foi incapaz de explicar sua presença na mão do homem assassinado. Suas roupas úmidas revelavam que estivera sob a tempestade na véspera e sua bengala, uma Penang com castão de chumbo, seria uma arma que, com golpes repetidos, poderia provocar os ferimentos horríveis que haviam sido a causa da morte do treinador.
– Por outro lado, ele não tinha nenhum ferimento, embora o estado da faca de Straker revelasse que pelo menos um dos seus assaltantes devia apresentar sua marca. Em resumo, este é o caso, Watson, e se você puder me ajudar a esclarecer alguma coisa, eu ficarei eternamente grato.
Ouvi com o maior interesse a narrativa que Holmes, com sua precisão característica, me fez. Embora a maioria dos fatos já fosse do meu conhecimento, eu não avaliara suficientemente sua relativa importância, ou a conexão entre eles.
– Não seria possível que o corte em Straker tivesse sido causado por sua própria faca, em conseqüência das convulsões decorrentes de qualquer ferimento no cérebro?
– É mais do que possível. É provável – disse Holmes. – Neste caso, desaparece um dos principais pontos a favor do acusado.
– Ainda assim não consigo compreender qual é a teoria da polícia.