– Foi esta a narrativa que li naquela noite para o jovem Trevor, e acho, Watson, que, naquelas circunstâncias, foi muito dramática. O rapaz, desolado, resolveu ir para Terai plantar chá, e ouvi dizer que prosperou ali. Quanto ao marinheiro e a Beddoes, nunca mais ouvi falar neles após o dia em que li a carta. Os dois desapareceram completamente. Não foi apresentada queixa à polícia, de modo que Beddoes deve ter confundido uma ameaça com um fato. Hudson foi visto rondando pelas imediações e a polícia acreditou que ele havia liquidado Beddoes e depois fugido. Mas eu acredito que ocorreu exatamente o oposto. O mais provável é que Beddoes, levado ao desespero e julgando-se traído, vingou-se de Hudson e fugiu do país, levando todo o dinheiro em que conseguiu pôr as mãos. São estes os fatos do caso, doutor, e se forem úteis à sua coletânea, estão inteiramente ao seu dispor.
o ritual musgrave
Uma anomalia que me impressionava com freqüência no caráter de meu amigo Sherlock Holmes era que, embora nos seus sistemas de raciocínio ele fosse o homem mais cuidadoso e sistemático do mundo, e apesar de mostrar um discreto requinte na maneira de vestir, seus hábitos pessoais eram dos mais excêntricos e capazes de levar à loucura um companheiro de quarto. Não que eu seja muito convencional neste aspecto. O trabalho irregular no Afeganistão, além de uma natural tendência à boêmia, fez com que eu ficasse mais negligente do que convém a um médico. Mas eu tenho um limite. Quando encontro alguém que guarda os charutos no balde do carvão, o tabaco enfiado num chinelo persa e a correspondência ainda não respondida presa com um punhal no meio do consolo da lareira, começo a considerar-me um verdadeiro santo. Sempre afirmei também que o tiro ao alvo deve ser praticado ao ar livre, e quando Holmes, num dos seus estranhos humores, resolve instalar-se numa poltrona e adornar a parede fronteira com um patriótico V.R. feito à bala, sinto que nem a atmosfera nem a aparência de nossa sala ganharão com isso.
Nossos aposentos estavam sempre tão cheios de produtos químicos e relíquias criminais, que acabavam ocupando os lugares mais absurdos, como a manteigueira, ou até locais menos desejáveis. Mas os seus papéis eram o meu grande problema. Holmes tinha horror a destruir documentos, principalmente os relacionados com casos passados, e apenas uma vez por ano, ou a cada dois anos, conseguia coragem para juntá-los e arrumá-los, porque, como mencionei em algum ponto destas memórias incoerentes, os surtos de energia apaixonada, quando ele realizava façanhas extraordinárias associadas ao seu nome, eram seguidos de reações letárgicas. Então ficava deitado, segurando o violino ou seus livros, e mal se movia, a não ser para se transferir do sofá para a mesa. E assim, mês após mês, os papéis se acumulavam, até que todos os cantos da sala ficavam cobertos de manuscritos, que não deviam ser queimados de modo algum, e só podiam ser guardados por ele mesmo.
Numa noite de inverno, quando estávamos sentados diante da lareira e ele acabara de colar recortes no seu álbum de ocorrências policiais, arrisquei-me a sugerir que ele poderia ocupar as duas horas seguintes tornando a nossa sala um pouco mais habitável. Ele não pôde negar a justiça do pedido e, com expressão melancólica, dirigiu-se para o quarto, de onde voltou instantes depois com um grande baú de metal. Ele o colocou no meio da sala, sentou-se num banquinho diante dele e abriu a tampa. Vi que o baú já estava quase cheio de pilhas de documentos atados com fita vermelha e separados em pacotes.
– Há muitos casos guardados aqui, Watson – disse, lançando-me um olhar malicioso. – Acho que se você soubesse tudo o que este baú contém, seria capaz de me pedir para tirar alguns daqui, em vez de guardar outros documentos.
– Então são registros dos seus primeiros casos? Muitas vezes desejei ter anotações desses casos.
– Sim, meu rapaz. Tudo isto foi feito prematuramente, antes que meu biógrafo surgisse para me cobrir de glória. – Ele ergueu um pacote após outro, num gesto carinhoso: – Nem todos são sucessos, Watson. Mas entre eles há probleminhas interessantes. Aqui estão as anotações referentes aos crimes de Tarleton e o caso de Vamberry, o negociante de vinhos; a aventura da senhora russa e o caso singular da muleta de alumínio, assim como o depoimento completo de Ricoletti, o perna-de-pau, e sua mulher abominável. E aqui... Ah! Este é realmente algo especial.
Mergulhou o braço até o fundo do baú e retirou uma caixinha de madeira com tampa deslizante, do tipo que serve para guardar brinquedos de criança. Tirou de dentro um papel amassado, uma chave de bronze de feitio antigo, um gancho de madeira ao qual estava presa uma bola de barbante e três discos de metal enferrujados.
– Então, meu caro, o que acha disto? – perguntou, sorrindo ao ver a minha expressão.
– É uma coleção estranha.
– Muito estranha. E a história que a envolve é mais estranha ainda.
– Estas relíquias têm uma história?