– Elas é que são a história.

– O que quer dizer com isso?

Sherlock Holmes recolheu os objetos um a um e colocou-os em fila na borda da mesa. Depois tornou a sentar-se, e ficou observando-os com um brilho de satisfação no olhar.

– Isto é tudo o que me restou do episódio do Ritual Musgrave.

Eu o ouvira falar do caso mais de uma vez, embora nunca tivesse conhecimento dos detalhes.

– Gostaria muito que você me contasse a história.

– E deixasse essa confusão como está? – perguntou, com um sorriso malicioso. – Seu espírito de ordem não suporta muita pressão, Watson. Mas gostaria que você acrescentasse este caso aos seus anais, porque há pontos que o tornam absolutamente singular nos registros criminais deste país ou mesmo, eu acredito, de qualquer outro. Uma coletânea das minhas pequenas realizações seria incompleta se não incluísse uma narrativa deste caso singular.

– Você deve se lembrar de que a história do e a minha conversa com o infeliz homem cujo destino eu lhe contei implicaram-me no rumo que se tornou a minha profissão. Hoje em dia meu nome é conhecido em toda parte e em geral sou reconhecido pelo público e pela polícia como a suprema corte de apelação em casos duvidosos. Mesmo quando você me conheceu, na época do caso que batizou de , eu já havia adquirido uma reputação considerável, embora não muito lucrativa. Portanto, será difícil para você compreender como foi duro a princípio e quanto tempo esperei para fazer sucesso na carreira.

– Ao me mudar para Londres, instalei-me em Montague Street, pertinho do Museu Britânico, e ali esperava, preenchendo as minhas muitas horas vagas, com o estudo de todos os ramos da ciência que poderiam tornar-me mais eficiente. De vez em quando surgia algum caso, principalmente por intermédio de antigos colegas, porque durante os meus últimos anos na universidade já se falava bastante a meu respeito e a respeito dos meus métodos. O terceiro desses casos foi o Ritual Musgrave e é ao interesse despertado por esse encadeamento singular de ocorrências e às grandes questões que estavam em jogo que atribuo o meu primeiro grande passo em direção à posição que tenho agora.

– Reginald Musgrave estudava na mesma faculdade, e eu o conhecia ligeiramente. Não era muito popular entre os alunos, embora eu sempre tivesse a impressão de que seu suposto orgulho era, na verdade, uma tentativa de ocultar uma excessiva timidez natural. Tinha aparência aristocrática, era magro, de nariz fino e olhos grandes, um jeito lânguido mas cortês. E era herdeiro de uma das famílias mais antigas do reino, embora pertencesse a um dos ramos mais novos, que se separara dos Musgraves do norte em algum momento do século XVI, estabelecendo-se no oeste, em Sussex, onde a mansão de Hurlstone talvez seja a mais antiga construção habitada existente no condado. Alguma coisa da sua terra natal parecia aderir ao homem e nunca olhei para o seu rosto pálido e atento, ou para a posição da cabeça, sem associá-lo a arcadas cinzentas, janelas de pinázio e a toda a venerável ruína de uma moradia feudal. Conversamos uma ou duas vezes e lembro-me de que ele manifestou profundo interesse pelos meus métodos de observação e dedução.

– Passei quatro anos sem vê-lo, até que certa manhã ele apareceu no meu quarto, em Montague Street. Pouco mudara. Vestia-se como um rapaz da moda – sempre fora um –, e conservava as maneiras discretas e suaves que o distinguiam no passado.

– “Como vai a vida, Musgrave?”, perguntei, depois de um cordial aperto de mãos.

– “Deve ter sabido da morte de meu pai”, disse ele. “Faleceu há dois anos. Desde então, é claro, precisei administrar a propriedade de Hurlstone. E como sou representante do distrito, tenho andado muito ocupado. Mas soube, Holmes, que você passou a aplicar a fins práticos aqueles talentos que costumavam nos surpreender.”

– “Sim, vivo à custa das minhas faculdades mentais.”

– “Estou encantado em saber disso, porque o seu conselho seria extremamente valioso para mim no momento. Ocorreram algumas coisas muito estranhas em Hurlstone e a polícia não conseguiu esclarecer a questão, que é de fato extraordinária e inexplicável.”

– Você pode imaginar com que interesse eu o escutei, Watson. A oportunidade que vinha esperando durante meses de inatividade parecia estar ao meu alcance. No fundo do coração eu acreditava ser capaz de vencer onde outros haviam fracassado. E ali estava a oportunidade para testar-me.

– “Conte com detalhes”, pedi.

– Reginald Musgrave sentou-se à minha frente e acendeu o cigarro que lhe ofereci.

– “Deve saber que, embora eu seja solteiro, preciso manter uma grande criadagem em Hurlstone, uma casa ampla e antiga, exigindo muito trabalho de manutenção. Tenho também uma reserva de caça e nos meses do faisão reúno um grupo de convidados, de modo que não posso ficar sem ajudantes. Ao todo são oito criadas, a cozinheira, o mordomo, dois criados e um lacaio. Os jardins e as cavalariças têm o seu separado, é claro.

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