– “Desses criados, o que está há mais tempo a nosso serviço é Brunton, o mordomo. Ele era um jovem professor desempregado quando meu pai o contratou, mas, como homem de grande energia e caráter, em pouco tempo tornou-se indispensável à família. Um rapaz bonito, bem proporcionado. Embora esteja conosco há vinte anos, não teria agora mais de 40. Com suas vantagens pessoais e talentos extraordinários, porque fala várias línguas e toca quase todos os instrumentos musicais, é espantoso que se tenha contentado por tanto tempo com esse emprego. Mas creio que achava a vida confortável e não tinha energia para modificá-la. O mordomo de Hurlstone é sempre lembrado por todos os que nos visitam.

– “Mas esse homem ideal tem um defeito. É um Don Juan e, como pode imaginar, para alguém como ele não é difícil representar o papel numa tranqüila região campestre.

– “Enquanto esteve casado, tudo correu bem, mas depois que enviuvou tivemos uma série de aborrecimentos. Alguns meses atrás tínhamos esperança de que ele assentasse novamente a cabeça, porque ficou noivo de Rachel Howells, uma das criadas da casa, mas desistiu dela e passou a interessar-se por Janet Tregellis, filha do chefe dos guarda-caças. Rachel, que é uma boa moça, mas com um arrebatado temperamento galês, teve uma febre que lhe afetou ligeiramente o cérebro e passou a vagar pela casa – ou pelo menos vagava até ontem – como uma sombra de si mesma. Foi o nosso primeiro drama em Hurlstone. Mas outro drama veio afastar este de nossa mente, e foi precedido pela desonra e demissão do mordomo Brunton.

– “O caso aconteceu assim. Eu disse que o homem é inteligente, e foi essa inteligência que o levou à ruína, porque estimulou nele uma curiosidade insaciável a respeito de coisas que não eram absolutamente da sua conta. Eu não imaginava a que ponto essa curiosidade o levaria, até que um simples acidente chamou minha atenção.

– “Disse que a casa é ampla. Numa noite da semana passada – na quinta-feira, para ser mais exato –, não consegui dormir depois de ter tomado uma xícara de café forte após o jantar. Lutei contra a insônia até as duas horas, quando desisti, me levantei e acendi uma vela com a intenção de continuar a leitura de um romance. Mas eu deixara o livro na sala de bilhar, de modo que vesti um roupão e saí do quarto para ir buscá-lo.

– “Para chegar à sala de bilhar eu precisava descer um lance de escada e atravessar o patamar que dava para a biblioteca e a sala de armas. Pode imaginar a minha surpresa quando olhei para o corredor e vi um reflexo de luz saindo da porta aberta da biblioteca, porque eu mesmo havia apagado a lâmpada e fechado a porta antes de me deitar. Naturalmente, no primeiro momento pensei que eram ladrões. As paredes dos corredores de Hurlstone são decoradas com troféus e armas antigas. Peguei um machado de guerra e, deixando a vela para trás, segui silenciosamente pelo corredor e olhei pela porta aberta.

– “Brunton, o mordomo, estava na biblioteca, sentado numa poltrona, inteiramente vestido, segurando um papel que parecia um mapa estendido sobre os joelhos. Estava com a cabeça apoiada na mão, pensando. Fiquei imóvel, muito espantado, observando-o do corredor escuro. Uma vela pousada na borda da mesa lançava uma luz fraca, mas suficiente para mostrar que ele estava inteiramente vestido. De repente, levantou-se, aproximou-se de uma escrivaninha, destrancou-a e abriu uma das gavetas. Dali retirou um papel e voltou a sentar-se na poltrona. Colocou-o ao lado da vela na borda da mesa e começou a lê-lo com a maior atenção. Indignado diante da tranqüilidade com que ele examinava os documentos de nossa família, adiantei-me um passo. Brunton, erguendo a cabeça, viu-me na porta. Levantou-se de um salto, pálido de susto, e enfiou no colete o papel semelhante a um mapa e que estivera lendo. ‘Então é assim que retribui a confiança que depositamos em você! Está dispensado a partir de amanhã.’

– “Inclinou-se com o aspecto de um homem totalmente arrasado e saiu sem uma palavra. A vela continuava na mesa e pude dar uma olhada no papel que Brunton havia tirado da gaveta. Para minha surpresa, não era nada de importante. Apenas uma cópia das perguntas e respostas da antiga e singular prática chamada Ritual Musgrave. É uma espécie de cerimônia específica da nossa família, pela qual cada Musgrave passa há séculos, ao atingir a maioridade. Uma coisa de interesse particular e talvez de alguma importância para um arqueólogo, como nossos brasões, e divisas, mas sem nenhuma utilidade prática.”

– “É melhor voltarmos mais tarde ao documento”, observei.

– “Se achar realmente necessário...”, ele respondeu com certa hesitação.

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