– Não, Watson, nunca. Meu bilhete para você era absolutamente genuíno. Tive pouca dúvida de que tivesse chegado ao fim da minha carreira quando percebi aquela silhueta um tanto sinistra do falecido professor Moriarty, de pé sobre a trilha estreita que levava à segurança. Li nos seus olhos um propósito inexorável. Portanto, troquei alguns comentários com ele e obtive sua permissão para escrever a pequena nota que você recebeu depois. Deixei-a com meu maço de cigarros e minha bengala, e andei ao longo da trilha, Moriarty ainda nos meus calcanhares. Quando cheguei ao final, parei, acuado. Ele não tinha arma, mas correu na minha direção e jogou seus braços longos em torno de mim. Ele sabia que seu próprio jogo estava acabado, sentia-se ansioso para se vingar em mim. Cambaleamos juntos pela borda da cachoeira. Mas tenho algum conhecimento de , ou o método japonês de luta corpo-a-corpo, o que me foi muito útil mais de uma vez. Esquivei-me de suas garras, e ele, com um grito horrível, rolou desvairado por alguns segundos, tentando agarrar o ar com as duas mãos. Mas, apesar de todos os esforços, não conseguiu se equilibrar e caiu. Olhando por sobre a borda, eu o vi cair um bom pedaço. Depois bateu numa pedra, quicou e caiu n’água.
Escutei com assombro a sua explicação, que Holmes ia contando entre baforadas de seu cigarro.
– Mas as pistas! – gritei. – Eu vi, com meus próprios olhos, que dois desceram a trilha e nenhum voltou.
– Já chegarei nesta parte. No instante em que o professor Moriarty desapareceu, me dei conta da oportunidade realmente extraordinária e feliz que o acaso colocara no meu caminho. Eu sabia que Moriarty não era o único homem que me jurara de morte. Havia pelo menos três outros cujo desejo de vingança contra mim só iria aumentar com a morte de seu líder. Todos eram homens extremamente perigosos. Um ou outro com certeza me pegaria. Por outro lado, se todo mundo se convencesse de que eu estava morto, esses homens agiriam com liberdade e logo se revelariam e, mais cedo ou mais tarde, eu poderia destruí-los. Aí seria o momento de anunciar que ainda continuava na terra dos vivos. A mente funcionou tão depressa que acho que pensei tudo isto antes de o professor Moriarty chegar ao fundo da Cachoeira Reichenbach.
– Levantei-me e examinei a parede rochosa atrás de mim. No seu resumo pitoresco do que aconteceu, que li com grande interesse alguns meses depois, você afirma que a parede era a pique. Não era bem assim. Na verdade, ela possuía alguns pequenos pontos de apoio e havia indícios de uma reentrância. O penhasco era tão alto que escalá-lo era uma impossibilidade óbvia, e também era impossível voltar pela trilha sem deixar algumas marcas. Eu deveria, é verdade, ter colocado minhas botas ao contrário, como já fiz em ocasiões semelhantes, mas a visão de três trilhas em uma direção sugeriria, com certeza, uma fraude. Em suma, era melhor que eu arriscasse a escalada. Não foi uma tarefa agradável, Watson. A cachoeira rugia ao meu lado. Não sou uma pessoa fantasiosa, mas lhe dou minha palavra de que julguei ter escutado a voz de Moriarty gritando para mim do fundo do abismo. Um erro teria sido fatal. Mais de uma vez, quando tufos de capim saíam nas minhas mãos ou meus pés escorregavam nas saliências da rocha, pensei que era o meu fim. Mas lutei para subir, e finalmente alcancei uma reentrância profunda e coberta de um musgo verde e macio, onde podia ficar sem ser visto, no mais perfeito conforto. Eu estava estirado ali quando você, meu caro Watson, e todos que o seguiam investigavam, da maneira mais simpática e ineficiente, as circunstâncias da minha morte.
– Por fim, quando todos vocês tiraram suas conclusões inevitáveis e totalmente errôneas, voltaram ao hotel e fiquei sozinho. Eu imaginara que havia chegado ao fim de minhas aventuras, mas um incidente bastante inesperado mostrou que ainda havia mais surpresas para mim. Uma rocha enorme, vinda lá de cima, passou por mim com estrondo, bateu na trilha e rolou para dentro do abismo. Por um instante pensei que fosse um acidente, mas logo depois, olhando para cima, vi a cabeça de um homem contra o céu quase escuro, e outra pedra bateu na reentrância em que eu estava estirado, a menos de 30 centímetros da minha cabeça. Naturalmente, o significado disso era óbvio, Moriarty não estivera ali sozinho. Um comparsa – e aquele único vislumbre bastou para me mostrar que o cúmplice era um homem perigoso – cúmplice ficara de guarda enquanto o professor me atacava. De uma certa distância, sem ser visto por mim, fora testemunha da morte do seu amigo e da minha fuga. Ficara esperando e depois, dando a volta no topo do penhasco, tentara obter êxito onde seu companheiro falhara.