Ronald Adair gostava de cartas – jogando constantemente, mas nunca com apostas que pudessem prejudicá-lo. Era membro dos clubes de jogos de cartas Baldwin, Cavendish e Bagatelle. Ficou provado que depois do jantar, no dia de sua morte, participou de um jogo de uíste no último desses clubes. Também jogara lá à tarde. O depoimento dos que jogaram com ele – . Murray, John Hardy e o coronel Moran – revelava que o jogo era o uíste e que havia um justo equilíbrio no baixar das cartas. Adair poderia ter perdido 5 libras, não mais. Sua fortuna era considerável e uma perda assim não o afetaria de maneira nenhuma. Jogava quase todos os dias num ou noutro clube, mas era um jogador prudente e geralmente ganhava. Verificou-se no depoimento que, em parceria com o coronel Moran, realmente ganhara 420 libras de uma só vez, algumas semanas antes, de Godfrey Milner e lorde Balmoral. Era assim sua história recente, como se apurou no inquérito.
Na noite do crime, ele voltou do clube exatamente às 22 horas. Sua mãe e sua irmã estavam fora, passando a noite com um parente. A criada disse no depoimento que ouviu quando ele entrou no quarto da frente do segundo andar, geralmente usado como sala de estar. Ela acendera a lareira e, como fizesse fumaça, abrira a janela. Nenhum som foi ouvido na sala até as 23:20h, a hora da volta de Maynooth e sua filha. Desejando dar-lhe boa-noite, tentou entrar no quarto do filho. A porta estava trancada por dentro, e não houve nenhuma resposta aos seus gritos e batidas. Conseguiram ajuda e arrombaram a porta. O jovem infeliz foi encontrado deitado perto da mesa. Sua cabeça fora horrivelmente mutilada por uma bala explosiva de revólver, mas não se encontrou nenhum tipo de arma no aposento. Sobre a mesa estavam duas notas de 10 libras cada e mais 17 libras, sendo dez em moedas de prata e ouro, o dinheiro arrumado em pequenas pilhas de valores variados. Havia também algumas cifras num pedaço de papel, com os nomes de alguns amigos dos clubes ao lado, e daí surgiu a hipótese de que antes de morrer ele estivesse tentando organizar uma lista de seus ganhos e perdas nas cartas.
Um rápido exame das circunstâncias só serviu para tornar o caso mais complexo. Em primeiro lugar, não havia nenhum motivo para que o rapaz trancasse a porta por dentro. Havia a possibilidade de o assassino ter feito isso e depois ter fugido pela janela. Entretanto, a queda era de pelo menos 6 metros, e um canteiro de açafrões em pleno viço fica bem embaixo. Nem as flores nem a terra mostravam sinais de terem sido mexidas, nem havia marcas na estreita faixa de grama que separava a casa da rua. Aparentemente, portanto, foi o próprio rapaz quem trancou a porta. Mas como foi que a morte chegou até ele? Ninguém poderia ter subido até a janela sem deixar vestígios. Supondo que um homem atirou pela janela, ele teria de ser um atirador excepcional para poder, com um revólver, causar um ferimento tão mortal. Park Lane é uma via pública muito movimentada; há um ponto de cabriolés de aluguel a menos de 100 metros da casa. Ninguém ouvira o tiro. E, mesmo assim, havia o homem morto, e a bala de revólver, que havia se expandido como um cogumelo, como fazem as balas de ponta mole, e causou um ferimento que deve ter provocado morte instantânea. Eram essas as circunstâncias do mistério de Park Lane, complicadas ainda mais pela ausência total de motivo, já que, como eu disse, ninguém sabia que o jovem Adair tivesse algum inimigo, e não foi feita nenhuma tentativa para tirar o dinheiro ou valores do quarto.
Todo dia eu analisava estes fatos, tentando encontrar uma teoria que abrangesse todos eles, e descobrir aquela linha de menor resistência, que meu pobre amigo afirmava ser o ponto de partida de toda investigação. Confesso que fiz poucos progressos. À noite, perambulei pela Park e só dei por mim lá pelas seis horas, em Oxford Street, no final de Park Lane. Um grupo de vadios na calçada, todos olhando para uma janela, me fez ir em direção à casa que viera olhar. Um homem alto e magro, com óculos coloridos, que eu suspeitava fortemente ser um detetive à paisana, estava expondo alguma teoria própria, enquanto os outros o rodeavam para ouvir o que ele dizia. Fiquei o mais perto possível dele, mas suas observações me pareceram absurdas, de modo que fui embora um pouco desapontado. Ao fazer isto, esbarrei num homem velho e deformado que estivera ali atrás de mim, e derrubei muitos dos livros que ele estava carregando. Lembro-me de que, enquanto os recolhia, notei o título de um deles, , e me ocorreu que o sujeito deveria ser algum pobre bibliófilo que, por negócio ou por colecionava livros antigos. Tentei me desculpar pelo incidente, mas era evidente que aqueles livros, que eu maltratei de modo tão desastrado, eram objetos muito preciosos aos olhos de seu dono. Com um grunhido de descontentamento, deu meia-volta e vi suas costas encurvadas e as suíças brancas desaparecerem na multidão.