Minhas observações sobre o número 427 de Park Lane não ajudaram muito a esclarecer o problema que me interessava. A casa era separada da rua por um muro baixo e uma grade, não mais do que 1,5 metro de altura no total. Portanto, era muito fácil para qualquer um entrar no jardim, mas a janela era totalmente inacessível, já que não havia nenhuma calha ou qualquer coisa que pudesse ajudar o mais decidido dos homens a escalá-la. Mais intrigado do que nunca, voltei pelo mesmo caminho para Kensington. Eu não estava há mais de cinco minutos no meu gabinete quando a empregada entrou para dizer que uma pessoa queria falar comigo. Para minha surpresa não era outro senão o estranho e velho colecionador de livros, seu rosto severo e murcho, espreitando-me por entre tufos de cabelos brancos, e seus livros preciosos, pelo menos uma dúzia deles, apertados sob o seu braço direito.

– Está surpreso de me ver, senhor – disse ele, numa voz estranha e áspera.

Admiti que estava.

– Bem, tenho uma consciência, senhor, e quando por acaso eu o vi entrando nesta casa, enquanto eu vinha mancando atrás, pensei comigo mesmo, vou dar uma entradinha e visitar aquele homem bondoso, e dizer-lhe que se tive uma atitude um pouco rude, não foi por mal, e que estou muito agradecido a ele por apanhar meus livros.

– Você se incomoda demais por uma coisa banal – eu disse. – Posso perguntar como soube quem eu era?

– Bem, senhor, se não for uma liberdade muito grande, sou seu vizinho, pois encontrará minha pequena livraria na esquina de Church Street, e muito contente por vê-lo, com certeza. Talvez o senhor mesmo os colecione. Aqui estão , e – uma pechincha, qualquer um deles. Com cinco volumes poderia preencher aquela lacuna na segunda prateleira. Parece desarrumada, não?

Virei a cabeça para olhar a prateleira atrás de mim. Quando me virei novamente, Sherlock Holmes estava sorrindo para mim, do outro lado da minha mesa. Levantei-me, encarei-o por alguns segundos com total espanto, e depois parece que desmaiei pela primeira e última vez na minha vida. Com certeza uma nuvem cinzenta rodopiou diante dos meus olhos, e quando se dissipou, descobri que meu colarinho estava aberto e senti o restinho do gosto de nos lábios. Holmes estava curvado sobre minha cadeira, de cantil na mão.

– Meu caro Watson – disse a voz tão conhecida –, eu lhe devo mil desculpas. Não sabia que ficaria tão abalado.

Agarrei-o pelos braços.

– Holmes! – gritei. – É você mesmo. Você está vivo mesmo? É possível que tenha conseguido escalar aquele abismo horrível?

– Espere um momento – disse ele. – Tem certeza de que é capaz de discutir coisas? Eu lhe provoquei um choque grave com a minha reaparição desnecessariamente dramática.

– Estou bem, mas realmente, Holmes, eu mal posso acreditar nos meus olhos. Meu Deus! Pensar que você – de todos os homens – estaria no meu gabinete – eu o segurei novamente pela manga e senti por baixo o braço magro e rijo. – Bem, de qualquer modo, você não é um espírito – disse eu. – Meu caro amigo, estou radiante por vê-lo. Sente-se e conte como saiu com vida daquele abismo terrível.

Ele sentou-se na minha frente e acendeu um cigarro com seu antigo jeito displicente. Estava vestido com a sobrecasaca desmazelada do vendedor de livros, mas o resto daquele indivíduo estava empilhado na mesa – os cabelos brancos e os velhos livros. Holmes parecia até mais magro e vivo do que antes, mas havia um tom branco de morte no seu rosto de feições aquilinas que indicava que sua vida, ultimamente, não fora muito saudável.

– Estou feliz por me esticar, Watson – disse. – Não é brincadeira quando um homem alto tem que diminuir sua estatura durante várias horas. Agora, meu caro amigo, no caso dessas explicações, nós temos pela frente, se puder pedir a sua cooperação, uma noite de trabalho difícil e perigoso. Talvez seja melhor eu lhe fazer um resumo de toda a situação quando o trabalho estiver terminado.

– Estou cheio de curiosidade. Prefiro ouvir agora.

– Virá comigo esta noite?

– Quando e onde quiser.

– Isto é, de fato, como nos velhos tempos. Nós precisamos de um pequeno jantar antes de ir. Bem, então sobre aquele abismo. Não tive grandes dificuldades em sair dele, pela simples razão de que jamais estive nele.

– Jamais esteve nele?

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