Tirara a sobrecasaca surrada e agora era o velho Holmes no roupão cor de rato que tirara do seu busto.

– Os nervos do velho não perderam sua firmeza, nem seus olhos a crueldade – disse ele com uma risada, enquanto examinava a testa esmigalhada de seu busto.

– Bem no meio da parte posterior da cabeça, direitinho através do cérebro. Era o melhor atirador da Índia, e acho que existem poucos melhores em Londres. Ouviu falar no seu nome?

– Não, não ouvi.

– Ora, ora, assim é a fama. Mas, se me lembro bem, você não tinha ouvido o nome do professor James Moriarty, que foi um dos maiores cérebros do século. Quer apanhar o índice de biografias na estante?

Virava as páginas preguiçosamente, recostado na cadeira e soltando grandes baforadas do cachimbo.

– Minha coleção de M é ótima – comentou. – O próprio Moriarty é suficiente para tornar qualquer letra ilustre, e aqui estão Morgan, o envenenador, Merridew, de abominável lembrança, e Mathews, que arrancou com um soco o meu canino esquerdo na sala de espera de Charing Cross, e finalmente, eis o nosso amigo desta noite.

Estendeu-me o livro, e li:

Desempregado. Antigamente no Primeiro Batalhão dos Pioneiros de Bangalore. Nascido em Londres em 1840. Filho de  Augustus Moran, C. B., que foi embaixador britânico na Pérsia. Educado em Eton e Oxford. Serviu na campanha de Jowaki, na campanha afegã, Charasiab (despachos), Sherpur e Cabul. Autor de  (1881), (1884). Endereço: Conduit Street. Clubes: O Anglo-Indiano, o Tankerville e o Clube Bagatelle de Cartas.

Na margem estava escrito, com a letra firme de Holmes:

O segundo homem mais perigoso de Londres.

– É assombroso – eu disse ao devolver o livro. – A carreira deste homem é a de um soldado honrado.

– É verdade – respondeu Holmes. – Até certo ponto ele agiu corretamente. Sempre foi um homem de nervos de aço, e conta-se ainda na Índia a história de como se arrastou por um escoadouro atrás de um tigre devorador de homens ferido. Existem árvores, Watson, que crescem até certa altura e de repente desenvolvem um desvio disforme. Você perceberá isso com freqüência nos seres humanos. Tenho uma teoria segundo a qual o indivíduo reproduz no seu desenvolvimento toda a evolução de seus antepassados e que uma mudança repentina, para o bem ou para o mal, surge em conseqüência de alguma  forte influência ocorrida em sua linhagem.

– Isto com certeza é bem fantasioso.

– Bem, não vou insistir neste ponto. Seja qual for a causa, o coronel Moran começou a comportar-se mal. Sem qualquer escândalo público, ainda tornou a Índia quente demais para abrigá-lo. Reformou-se, veio para Londres e adquiriu de novo má fama. Nessa época, foi requisitado pelo professor Moriarty, para quem trabalhou durante algum tempo como chefe da equipe. Moriarty o abastecia generosamente de dinheiro e o utilizou em apenas um ou dois trabalhos de primeira categoria, que nenhum criminoso comum poderia realizar. Você deve ter alguma lembrança da morte da sra. Stewart, de Lauder, em 1887. Não? Bem, estou certo de que Moran estava por trás disso, mas nada pôde ser provado. Foi tão esperto que, mesmo quando a quadrilha de Moriarty foi desbaratada, nós não conseguimos incriminá-lo. Você se lembra de que naquela data, quando fui visitá-lo em seus aposentos, fechei as venezianas com medo das armas de ar comprimido? É claro que você pensou que eu era um lunático. Eu sabia o que estava fazendo, porque tinha conhecimento da existência dessa arma notável, e sabia também que um dos maiores atiradores do mundo estaria atrás de mim. Quando fomos para a Suíça, ele nos seguiu com Moriarty e, sem sombra de dúvida, foi ele quem me proporcionou aqueles malditos cinco minutos na saliência de Reichenbach.

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