– Pode imaginar que li aqueles papéis com atenção durante minha estada na França, à espera de alguma oportunidade de pegá-lo pelo pé. Assim que ele estivesse livre em Londres, minha vida não valeria absolutamente nada. Noite e dia sua sombra estaria no meu encalço, e cedo ou tarde ele teria sua oportunidade. O que eu poderia fazer? Não poderia simplesmente atirar nele, ou eu mesmo iria para o banco dos réus. Não adiantaria apelar para um juiz. Eles não poderiam interferir com energia no que, para eles, pareceria uma suspeita insensata. Portanto, não poderia fazer nada. Mas olhava as notícias de crimes, sabendo que mais cedo ou mais tarde eu o pegaria. Aí veio a morte desse Ronald Adair. Minha oportunidade chegara finalmente. Pelo que eu sabia, não era certo que o coronel Moran tivesse feito isso? Ele jogara cartas com o rapaz, seguira-o do clube até em casa, atirara nele através da janela aberta. Sobre isso não havia dúvidas. Só as balas seriam suficientes para enforcá-lo. Comecei a trabalhar logo. Fui visto pela sentinela que, eu sabia, iria chamar a atenção do coronel para a minha presença. Ele não deixaria de ligar a minha volta repentina ao seu crime e ficaria terrivelmente alarmado. Eu tinha certeza de que ele tentaria me tirar do caminho e usaria sua arma mortal com este propósito. Deixei para ele um ótimo alvo na janela e, tendo avisado a polícia de que poderíamos precisar dela – falando nisso, Watson, você descobriu a presença deles na porta com grande exatidão –, ocupei o lugar que me pareceu ser um bom posto de observação, sem nunca ter imaginado que ele escolheria o mesmo lugar para o seu ataque. Agora, meu caro Watson, quer que eu explique mais alguma coisa?

– Sim – eu disse. – Você não esclareceu qual o motivo do coronel Moran para assassinar o Ronald Adair.

– Ah, meu caro Watson, aqui entraremos nos domínios da conjectura, onde a mais lógica das mentes pode falhar. Cada um pode formular sua própria hipótese em cima da evidência existente, e a sua pode estar tão correta quanto a minha.

– Tem uma, então?

– Acho que não é tão difícil explicar os fatos. Foi revelado no inquérito que o coronel Moran e o jovem Adair tinham, entre eles, ganhado uma soma considerável. Agora, sem dúvida Moran jogava sujo – disso eu sabia há muito tempo. Acho que, no dia do crime, Adair descobriu que Moran andava trapaceando. É provável que tenha falado com ele em particular e tenha ameaçado denunciá-lo, a menos que desistisse voluntariamente de ser membro do clube, e prometesse não jogar cartas de novo. É improvável que um jovem como Adair fizesse logo um escândalo terrível, expondo um homem tão conhecido e mais velho que ele. Certamente agiu como imaginei. A exclusão de seus clubes significaria a ruína para Moran, que vivia de seus ganhos nas cartas, conseguidos de modo desonesto. Portanto, assassinou Adair, que àquela hora estava tentando descobrir quanto dinheiro deveria devolver, já que não poderia lucrar com o jogo sujo do seu parceiro. Trancou a porta para que as mulheres não o surpreendessem e insistissem em saber o que ele estava fazendo com aqueles nomes e as moedas. Aprovado?

– Não tenho dúvida de que você descobriu a verdade.

– Será confirmada ou contestada no julgamento. Enquanto isso, o coronel Moran não nos atrapalhará mais. A famosa arma de ar de Von Herder irá enfeitar o museu da Scotland Yard e mais uma vez o sr. Sherlock Holmes está livre para dedicar sua vida a examinar aqueles probleminhas interessantes que a vida complexa de Londres apresenta com tanta fartura.

a aventura do

construtor de norwood

– Do ponto ponto de vista de um perito criminal  – disse ao sr. Sherlock Holmes –, Londres transformou-se numa cidade singularmente desinteressante desde a morte do saudoso professor Moriarty.

– Duvido que encontre muitos cidadãos decentes que concordem com você – respondi.

– Bem, bem, não devo ser egoísta – ele disse com um sorriso, enquanto afastava sua cadeira da mesa, depois do café-da-manhã. – A comunidade com certeza é a ganhadora e ninguém é o perdedor, a não ser o pobre perito sem trabalho, cuja ocupação desapareceu. Com aquele homem na área, cada jornal matutino apresentava possibilidades infinitas. Freqüentemente, Watson, o menor traço, a indicação mais vaga já bastavam para me dizer que o grande cérebro maligno estava ali, assim como

os menores tremores nas bordas da teia lembram-nos da aranha que se oculta no centro. Furtos insignificantes, assaltos audaciosos, afrontas sem propósito – quem tivesse a pista poderia juntar tudo num conjunto interligado. Para o estudioso científico do alto mundo do crime, nenhuma capital da Europa oferecia as vantagens que Londres tinha então. Mas agora... – encolheu os ombros numa depreciação bem-humorada do estado de coisas para o qual ele próprio contribuíra.

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