Na época de que falo, Holmes tinha reaparecido havia alguns meses, e, a seu pedido, eu vendera minha clínica e voltara a dividir com ele os antigos aposentos em Baker Street. Um jovem médico chamado Verner comprara minha pequena clínica em Kensington, pagando sem objeções o alto preço que ousei pedir – um incidente que só se explicou alguns anos depois, quando descobri que Verner era um parente distante de Holmes e, na verdade, fora o meu amigo quem dera o dinheiro.
Nossos meses de parceria não foram tão desprovidos de casos como ele afirmara, pois descobri, examinando minhas anotações, que este período inclui o caso dos papéis do ex-presidente Murillo, e também o caso chocante do barco a vapor holandês ,que quase nos custou a vida. Entretanto, sua natureza fria e orgulhosa era sempre avessa a qualquer tipo de aplauso público, intimando-me, nos termos mais rigorosos, a não dizer uma palavra sobre ele, seus métodos ou suas vitórias – uma proibição que, como já expliquei, só agora foi retirada.
Sherlock Holmes recostara-se na cadeira após seu protesto lamentoso e estava desdobrando sem pressa o jornal matutino, quando nossa atenção foi atraída por um tremendo toque da campainha, seguido de uma pancada oca, como se alguém estivesse batendo na porta de fora com a mão fechada. Assim que ela se abriu, houve um tumulto no saguão, passos rápidos subindo a escada e logo depois um jovem fora de si, com um olhar selvagem, pálido, desalinhado e palpitante, irrompeu na sala. Olhou alternadamente para nós dois e, diante de nosso olhar inquiridor, percebeu que era preciso alguma desculpa para esta entrada sem cerimônia.
– Desculpe-me, sr. Holmes! – exclamou. – Não deve me censurar. Estou quase louco, sr. Holmes, sou o infeliz John Hector McFarlane.
Ele se anunciou como se bastasse o nome para explicar sua visita e seus modos, mas eu podia ver, pelo rosto inexpressivo do meu amigo, que não significava mais para ele do que para mim.
– Pegue um cigarro, sr. McFarlane – disse ele, estendendo-lhe sua cigarreira. – Estou certo de que, com os seus sintomas, meu amigo aqui, o dr. Watson, lhe prescreveria um sedativo. O tempo tem estado tão quente nesses últimos dias. Agora, se o senhor estiver um pouco melhor, eu gostaria que se sentasse naquela cadeira e nos contasse calma e lentamente quem é e o que deseja. Mencionou seu nome como se eu devesse conhecê-lo, mas asseguro-lhe que, a não ser os fatos óbvios de que é solteiro, advogado, maçom e asmático, não sei mais nada sobre o senhor.
Familiarizado como estava com os métodos do meu amigo, não foi difícil para mim acompanhar suas deduções e observar as roupas desalinhadas, o maço de papéis legais, o berloque do relógio e a respiração que as sugerira. Mas nosso cliente ficou espantado.
– Sim, sou tudo isso, sr. Holmes, e também o homem mais infeliz de Londres neste momento. Por Deus, não me abandone, sr. Holmes! Se vierem me prender antes de eu terminar minha história, faça com que me dêem tempo para que possa lhe contar toda a verdade. Poderia ir para a cadeia feliz, se soubesse que o senhor estaria trabalhando por mim do lado de fora.
– Prender você! – disse Holmes. – Isto é realmente muito grati... muito interessante. Sob que acusação você espera ser preso?
– Sob a acusação de assassinar o sr. Jonas Oldacre, de Lower Norwood.
O rosto expressivo do meu amigo mostrava uma simpatia que, receio, não estava totalmente isenta de satisfação.
– Pobre de mim – disse ele. – Há poucos instantes, no café-da-manhã, eu estava dizendo ao meu amigo, dr. Watson, que os casos sensacionais haviam desaparecido dos nossos jornais.
Nosso visitante estendeu a mão trêmula e pegou o que ainda estava sobre os joelhos de Holmes.
– Se o tivesse lido, senhor, teria visto logo com que intenção vim aqui esta manhã. Sinto-me como se meu nome e meu infortúnio estivessem na boca de todos. – Mostrou-nos a página central. – Aqui está e, com sua permissão, vou lê-lo para o senhor. Escute isto, sr. Holmes. O cabeçalho é: “Caso Misterioso em Lower Norwood. Desaparecimento de um Conhecido Construtor. Suspeita de Assassinato e Incêndio Premeditado. Pista para o Criminoso.” Esta é a pista que eles já estão seguindo, sr. Holmes, e sei que ela conduz infalivelmente a mim. Fui seguido desde a estação da Ponte de Londres, e tenho certeza de que estão apenas esperando pelo mandado para me prenderem. Isto vai partir o coração de minha mãe – vai partir o coração dela! – Ele torcia as mãos de angústia e se balançava para a frente e para trás na cadeira.
Olhei com interesse para esse homem, que era acusado de ser o autor de um crime violento. Era bonito e louro, de um modo desbotado e neutro, com olhos azuis amedrontados e um rosto escanhoado, uma boca sensível e delicada. Devia ter uns 27 anos, seu modo de vestir e seu procedimento eram os de um cavalheiro. Do bolso de seu sobretudo claro de verão sobressaía o maço de papéis que revelava sua profissão.