– Este lugar, Deep Dene House, é uma casa de campo grande e moderna, nos fundos de seu terreno, com moitas de louro na frente. À direita e a uma certa distância da estrada estava o pátio de lenha que foi o cenário do incêndio. Aqui está um esboço do mapa, numa folha do meu caderno. Esta janela à esquerda é a que dá para o quarto de Oldacre. Da estrada, você pode olhar lá para dentro. Este foi o único consolo que tive hoje. Lestrade não estava lá, mas seu braço direito fez as honras. Tinham acabado de achar uma preciosidade. Haviam passado a manhã inteira remexendo as cinzas da pilha de madeira queimada e, além dos restos orgânicos torrados, encontraram vários discos de metal descoloridos. Examinei-os com cuidado, e não havia dúvida de que eram botões de calça. Até percebi que um deles estava marcado com o nome de “Hyams”, que era o alfaiate de Oldacre. Então examinei a área cuidadosamente à procura de sinais e vestígios, mas esta seca deixou tudo duro como ferro. Não havia nada para ser visto, a não ser que um corpo ou fardo fora atirado numa pequena sebe de alfena, que está ao lado da pilha de madeira. Tudo isso, claro, se encaixa na teoria oficial. Rastejei pelo jardim com um sol de agosto nas minhas costas, mas me levantei depois de uma hora sem saber mais do que antes.

– Bem, depois deste fiasco, fui para o quarto e o revistei também. As manchas de sangue eram muito tênues, simples borrões e descolorações, mas, sem dúvida alguma, frescas. A bengala já tinha sido retirada, mas lá as marcas também eram superficiais. Não há dúvida de que a bengala pertencia ao nosso cliente. Ele admite isso. Pegadas dos dois homens podiam ser notadas no tapete, mas nenhuma de uma terceira pessoa, o que é novamente uma decepção para nós. Eles estão aumentando seu escore, enquanto nós ainda estamos na estaca zero.

– Só tive um pequeno lampejo de esperança – e de novo não deu em nada. Examinei o conteúdo do cofre, cuja maior parte havia sido retirada e colocada em cima da mesa. Os papéis foram postos em envelopes selados, dos quais um ou dois a polícia abrira. Não eram, pelo que pude ver, de grande valor, nem a caderneta do banco mostrava que o sr. Oldacre estava numa situação tão boa. Mas me pareceu que nem todos os papéis estavam ali. Havia alusões a certos documentos – possivelmente os mais valiosos – que não consegui encontrar. Isto, é claro, se pudéssemos prová-lo definitivamente, viraria o argumento de Lestrade contra ele mesmo; pois quem roubaria algo se soubesse que o herdaria em breve?

– Por fim, tendo vasculhado todos os livros e não encontrando nenhuma pista, tentei a sorte com a governanta, a sra. Lexington – pequenina, morena e silenciosa, com olhos desconfiados e oblíquos. Ela poderia nos contar algo, se quisesse – estou convencido disso. Mas era muito fechada. Sim, deixara o sr. McFarlane entrar às 21:30h. Desejou que sua mão tivesse secado antes de fazer aquilo. Foi para a cama às 22:30h. Seu quarto ficava no outro lado da casa, e não podia ouvir nada do que se passou. O sr. McFarlane tinha deixado o chapéu e, tanto quanto sabia, a bengala, no saguão. Foi acordada pelo alarme de incêndio. Seu pobre, querido patrão certamente fora assassinado. Ele tinha inimigos? Ora, todo homem tem inimigos, mas o sr. Oldacre era muito fechado, e só se relacionava com as pessoas na área de trabalho. Ela vira os botões e tinha certeza de que pertenciam às roupas que ele vestira na noite passada. A pilha de madeira estava muito seca, pois não chovera durante um mês. Queimou como uma isca inflamável, e quando chegou ao local, não se via nada além das chamas. Ela e todos os bombeiros sentiram o cheiro de carne queimada que vinha de lá. Não sabia nada sobre os papéis nem sobre a vida particular do sr. Oldacre.

– Aí está, meu caro Watson, o relato de um fracasso. E ainda assim – e ainda assim – ele cerrou as mãos num paroxismo de convicção. – Eu que está tudo errado. Sinto isso nos meus ossos. Existe algo que ainda não apareceu, e aquela governanta sabe o que é. Havia uma espécie de desafio irritado em seus olhos, que só se explica pelo conhecimento culposo. Entretanto, é melhor não falarmos mais nisso, Watson; mas, a não ser que algum feliz acaso nos apareça, receio que o Caso do Desaparecimento de Norwood não figurará nas crônicas dos nossos êxitos, dos quais prevejo que um público paciente tomará conhecimento, cedo ou tarde.

– Decerto – disse eu – a aparência do homem ajudaria em qualquer júri?

– Este é um argumento perigoso, meu caro Watson. Lembra-se daquele assassino terrível, Bert Stevens, que queria que o puséssemos em liberdade em 1887? Já houve algum rapaz mais bem-educado, com aparência de aluno de uma escola de catecismo?

– É verdade.

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