– A menos que consigamos elaborar uma teoria alternativa, este homem está perdido. Você dificilmente pode achar uma falha na acusação que agora pode ser apresentada contra ele, e toda investigação a mais tem servido para reforçá-la. Falando nisso, há um pequeno detalhe curioso em relação a esses papéis que pode nos servir como ponto de partida de uma investigação. Ao examinar a caderneta do banco, descobri que o saldo pequeno era causado principalmente por grandes somas que foram retiradas durante o ano passado para o sr. Cornelius. Confesso que estou interessado em saber quem seria este sr. Cornelius, com quem um construtor aposentado manteve transações tão vultosas. Será possível que ele tenha tido um dedo no caso? Cornelius podia ser um corretor, mas não encontramos nenhum certificado de subscrição de ações que correspondesse a esses pagamentos grandes. Depois do fracasso de outras indicações, minhas pesquisas devem se concentrar agora no banco, para descobrir o cavalheiro que se apresentou para descontar estes cheques. Mas receio, meu caro amigo, que o nosso caso termine de modo inglório, com Lestrade enforcando nosso cliente, o que certamente será um triunfo para a Scotland Yard.
Não sei se Sherlock Holmes conseguiu dormir aquela noite, mas, quando desci para o café-da-manhã, encontrei-o pálido e fatigado, seus olhos brilhantes reluziam ainda mais devido às sombras escuras ao redor deles. O tapete em volta da sua cadeira estava coberto de pontas de cigarro e com as edições recentes dos jornais matutinos. Um telegrama estava aberto sobre a mesa.
– O que acha disso, Watson? – perguntou, atirando-o para mim.
Era de Norwood, e dizia o seguinte:
Importante indício novo em mãos. Culpa de McFarlane definitivamente estabelecida. Aconselho abandonar caso.
Lestrade.
– Isso parece ser sério – eu disse.
– É o pequeno canto de vitória de Lestrade – respondeu Holmes, com um sorriso amargurado. – E ainda pode ser prematuro abandonar o caso. Afinal, importante indício novo é uma faca de dois gumes, e pode cortar numa direção bem diferente da que Lestrade imagina. Tome o seu café, Watson, sairemos juntos e veremos o que podemos fazer. Sinto-me como se precisasse de sua companhia e apoio moral hoje.
Meu amigo não tomou o café-da-manhã, pois uma de suas peculiaridades era que em seus momentos mais intensos ele não se permitia nenhuma comida, e eu sabia que confiava demais na sua força de ferro, até que desmaiava de pura inanição. “No momento não posso gastar energia e força dos nervos para a digestão”, ele diria, em resposta aos meus conselhos médicos. Sendo assim, não me surpreendi quando nessa manhã ele deixou sua comida intacta e foi comigo para Norwood. Um grupo de observadores mórbidos ainda estava reunido em volta de Deep Dene House, que era uma casa de campo suburbana tal como eu imaginara. Dentro dos portões, Lestrade encontrou-se conosco, seu rosto corado com a vitória, seus modos triunfantemente brutos.
– Bem, sr. Holmes, já provou que estamos errados? Achou o seu vagabundo? – exclamou.
– Ainda não cheguei a nenhuma conclusão – respondeu o meu amigo.
– Mas nós chegamos à nossa ontem, e agora ela prova que é correta; assim, deve reconhecer que desta vez estamos um pouco à sua frente, sr. Holmes.
– Sua expressão mostra que aconteceu algo incomum – disse Holmes.
Lestrade riu alto.
– O senhor não gosta de ser derrotado, assim como nós – ele disse. – Um homem não pode esperar que tudo saia sempre à sua maneira, pode, dr. Watson? Sigam por aqui, cavalheiros, e acho que posso convencê-los de uma vez por todas que foi John McFarlane quem cometeu este crime.
Ele nos levou por um corredor e chegamos a um saguão.
– Foi aqui que o jovem McFarlane deve ter vindo para apanhar seu chapéu, depois de o crime ter sido cometido – disse ele. – Agora olhem para isto. – Com uma rapidez dramática, acendeu um fósforo, e à sua luz vimos uma mancha de sangue na parede branca. Quando ele aproximou o fósforo, vi que era mais do que uma mancha. Era a nítida impressão de um polegar.
– Olhe para ela com sua lente de aumento, sr. Holmes.
– Sim, estou fazendo isso.
– Sabe que duas impressões de polegar nunca são iguais?
– Ouvi algo deste tipo.
– Bem, então, queira comparar esta impressão com a do jovem McFarlane, em cera, que eu mandei tirar esta manhã.
Quando ele comparou as duas, não era necessário usar uma lente de aumento para se ver que elas eram, sem sombra de dúvida, do mesmo polegar. Era evidente para mim que o nosso cliente estava perdido.
– Isto é definitivo – disse Lestrade.
– Sim, é definitivo – repeti involuntariamente.
– É definitivo – disse Holmes.
Alguma coisa no seu tom chamou minha atenção, e me virei para ele. Ocorrera uma mudança extraordinária em seu rosto. Estava com uma expressão de contentamento interior. Seus olhos brilhavam como estrelas. Parecia que estava fazendo um esforço desesperado para reprimir um ataque de riso.