Como já mencionara, havia um corredor largo ali, que passava por três quartos vazios. Numa extremidade do corredor estávamos todos nós, conduzidos por Sherlock Holmes, os policiais sorrindo e Lestrade encarando meu amigo com espanto, expectativa e escárnio se alternando em suas feições. Holmes ficou diante de nós com a expressão de um ilusionista que está fazendo seu número.

– Você poderia, por gentileza, mandar um de seus subordinados buscar dois baldes de água? Ponham a palha no chão aqui, longe da parede, dos dois lados. Agora acho que já estamos prontos.

O rosto de Lestrade começou a ficar vermelho e furioso.

– Não sei se está fazendo uma brincadeira conosco, sr. Sherlock Holmes – disse ele. – Se sabe de alguma coisa, pode muito bem contá-la para nós sem toda essa tolice.

– Eu lhe asseguro, meu bom Lestrade, que tenho um ótimo motivo para tudo o que faço. É provável que se lembre de que caçoou de mim algumas horas atrás, quando o sol parecia brilhar a seu favor; portanto, você tem de me conceder um pouco de pompa e cerimônia agora. Watson, quer abrir aquela janela e depois jogar um fósforo na ponta da palha?

Fiz isso, e levada pela corrente de ar, uma coluna de fumaça cinza encheu o corredor, enquanto a palha seca crepitava e ardia.

– Agora vamos ver se conseguimos arranjar essa testemunha para você, Lestrade. Peço-lhes que gritem juntos “fogo!” Agora, então: 1, 2, 3...

– Fogo! – gritamos todos.

– Obrigado. Vou incomodá-los mais uma vez.

– Fogo!

– Só mais uma vez, cavalheiros, e todos juntos.

– Fogo! – O grito deve ter ecoado por toda Norwood.

O grito mal havia morrido, quando aconteceu uma coisa espantosa. Uma porta se abriu de repente no lugar que parecia ser uma parede sólida no final do corredor, e um homem pequeno e mirrado saiu correndo como um coelho para fora da toca.

– Excelente! – disse Holmes, calmamente. – Watson, um balde de água sobre a palha. Está bom! Lestrade, permita-me apresentá-lo à nossa principal testemunha desaparecida, sr. Jonas Oldacre.

O inspetor olhou para o recém-chegado com uma surpresa desconcertada. Este, piscando por causa da luz brilhante do corredor, olhava com curiosidade para nós e para o fogo que ardia. Era um rosto odioso – manhoso, perverso, maligno, com olhos astutos, de um cinza-claro com pestanas brancas.

– O que é isto? – perguntou Lestrade finalmente. – O que esteve fazendo todo este tempo, hein?

Oldacre deu um sorriso forçado, recuando diante da cara vermelha e furiosa do inspetor.

– Não fiz nenhum mal.

– Nenhum mal? Você fez o que pôde para levar à forca um homem inocente. Se não fosse por estes cavalheiros aqui, não sei se não teria conseguido.

A criatura desprezível começou a choramingar.

– Estou certo, senhor, de que foi só uma brincadeira.

– Oh! Uma brincadeira, não foi? Não vai achar graça na sua vez, eu lhe prometo. Levem-no para baixo e o mantenham na sala de visitas até que eu chegue. Sr. Holmes – continuou, depois que eles saíram –, eu não podia falar diante dos policiais, mas não me importo de dizer, na presença do dr. Watson, que esta foi a coisa mais brilhante que já fez, embora seja um mistério para mim como a fez. Salvou a vida de um homem inocente e evitou um grande escândalo, que arruinaria minha reputação na polícia.

Holmes sorriu e deu um tapinha no ombro de Lestrade.

– Em vez de ser arruinada, meu caro, descobrirá que a sua reputação foi enormemente aumentada. Faça algumas alterações naquele relatório que estava escrevendo, e eles entenderão como é difícil jogar areia nos olhos do inspetor Lestrade.

– E o senhor não quer que seu nome apareça?

– De modo algum. O trabalho é a própria recompensa. Talvez eu também tenha algum crédito num dia distante, quando permitir que o meu zeloso historiador espalhe seus papéis mais uma vez – hein, Watson? Bem, agora vamos ver onde esse rato estava escondido.

Havia um aposento de ripas e gesso junto ao corredor, a 2 metros do final, com uma porta engenhosamente disfarçada nele. Era iluminado por meio de brechas no beiral do telhado. Alguns móveis e um suprimento de comida e água estavam ali, juntamente com alguns livros e papéis.

– Esta é a vantagem de ser um construtor – disse Holmes quando saímos. – Era capaz de fazer seu próprio esconderijo sem nenhum cúmplice – a não ser, é claro, aquela sua preciosa governanta, que eu não demoraria em colocar na sua bagagem, Lestrade.

– Seguirei o seu conselho. Mas como descobriu este lugar, sr. Holmes?

– Concluí que o sujeito estava escondido nesta casa. Quando medi um corredor e descobri que era 2 metros menor que o seu correspondente abaixo, ficou bem claro onde ele estava. Imaginei que não teria sangue-frio para ficar quieto depois de um alarme de incêndio. É claro que nós poderíamos ter entrado e o capturado, mas me diverti fazendo com que ele se denunciasse. Além do mais, devia-lhe um pequeno embuste, Lestrade, pela sua troça da manhã.

– Bem, senhor, conseguiu empatar comigo nisso. Mas como soube que ele estava de fato na casa?

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