Nossa busca não foi muito longa. As marcas dos pneus começaram a fazer curvas fantásticas na trilha molhada e brilhante. De repente, ao olhar para diante, vi o brilho de metal por entre os tufos de tojo. De lá tiramos uma bicicleta, com pneus Palmer, um dos pedais amassado, e toda a parte dianteira horrivelmente lambuzada e babada de sangue. Do outro lado dos arbustos, aparecia um sapato. Demos a volta, e lá estava o infeliz ciclista. Era um homem alto, com uma barba grande e óculos, sem uma das lentes que devia ter caído. A causa de sua morte era um horrível golpe na cabeça, que partiu o crânio. O fato de ele ter conseguido continuar depois de receber um golpe assim revelava sua vitalidade e coragem. Estava de sapatos, mas sem meias, e seu casaco aberto mostrava uma camiseta de dormir por baixo. Era sem dúvida o professor alemão.
Holmes desvirou o corpo com cuidado e o examinou com muita atenção. Depois sentou-se pensativo por algum tempo, e eu podia ver pelas sobrancelhas franzidas que, na sua opinião, esta descoberta sinistra não fora um grande progresso na nossa investigação.
– É um pouco difícil saber o que fazer, Watson – disse por fim. – Minha disposição é no sentido de continuar esta investigação, pois já perdemos muito tempo e não podemos desperdiçar mais uma hora. Por outro lado, devemos informar a polícia a respeito da descoberta, e providenciar para que tomem conta do corpo deste pobre sujeito.
– Eu poderia levar um bilhete.
– Mas preciso da sua companhia e ajuda. Espere um momento! Tem alguém ali cortando turfa. Traga-o aqui, e ele guiará a polícia.
Trouxe o camponês e Holmes despachou o homem assustado com o bilhete para o dr. Huxtable.
– Agora, Watson – disse –, descobrimos duas pistas esta manhã. Uma é a bicicleta com os pneus Palmer, e vemos onde isto acabou. A outra é a bicicleta com o Dunlop remendado. Antes de iniciarmos esta investigação, vamos tentar entender o que sabemos realmente, para tirar o máximo disto e separar o essencial do acidental.
– Antes de tudo, quero lhe dizer que o garoto com certeza saiu por vontade própria. Ele desceu pela janela e foi embora, sozinho ou com mais alguém. Isto é certo.
Assenti.
– Bem, agora, voltemos ao infeliz professor alemão. O garoto estava completamente vestido quando fugiu. Portanto, já sabia o que ia fazer. Mas o alemão saiu sem as meias. Com certeza agiu às pressas.
– Sem dúvida.
– Por que saiu? Porque, da janela do seu quarto, viu a fuga do garoto; porque quis ir atrás dele e trazê-lo de volta. Pegou sua bicicleta, perseguiu o rapaz, e nessa perseguição encontrou a morte.
– Assim parece.
– Agora chego à parte decisiva do meu raciocínio. A atitude natural de um homem ao perseguir um garoto seria a de correr atrás dele. Ele saberia que conseguiria alcançá-lo. Mas o alemão não faz isso. Vai pegar sua bicicleta. Soube que era um ciclista excelente. Não faria isso, se não visse que o garoto tinha algum meio rápido de fuga.
– A outra bicicleta.
– Continuemos nossa reconstituição. Ele foi morto a 7 quilômetros do colégio – não por uma bala, o que até mesmo um garoto poderia disparar, mas por um golpe violento, desferido por um braço vigoroso. O garoto, portanto, teve um companheiro na sua fuga. E foi uma fuga rápida, pois andaram 7 quilômetros antes que um ótimo ciclista os alcançasse. E ainda pesquisamos o chão em volta do local da tragédia. O que encontramos? Alguns rastros de gado, nada mais. Dei uma grande volta por aí, e não existem trilhas a menos de 50 metros. Um outro ciclista poderia não ter tido nada com o assassinato, e lá também não havia pegadas humanas.
– Holmes! – exclamei –, isto é impossível!
– Admirável! – disse ele. – Uma observação esclarecedora. É impossível do modo como falei, entretanto posso, em algum aspecto, ter falado de modo equivocado. Pois você viu por si mesmo. Pode sugerir alguma falha?
– Ele não poderia ter fraturado o crânio numa queda?
– Num lodaçal, Watson?
– Estou desorientado.
– Tsc, tsc, já resolvemos problemas piores. Pelo menos temos muito material; se ao menos pudéssemos usá-lo. Venha então e, depois do Palmer, vamos ver o que o Dunlop com a parte remendada tem a nos oferecer.
Pegamos a trilha e a seguimos por algum tempo, mas o pântano logo se elevava numa curva longa cheia de tufos de urze, e deixamos o riacho para trás. Não se podia mais esperar ajuda alguma de trilhas. Do lugar onde vimos pela última vez o pneu Dunlop, podíamos ter ido também para Holdernesse Hall, cujas torres majestosas apareciam alguns quilômetros à nossa esquerda, ou para uma vila pequena e pardacenta que ficava à nossa frente, e indicava a posição da estrada principal de Chesterfield.
Quando nos aproximamos do hotel repugnante e miserável, com o símbolo de um galo de briga sobre a porta, Holmes deu um súbito gemido, e agarrou meu ombro para não cair. Tivera um desses estiramentos violentos que deixam um homem desamparado. Com dificuldade foi até a porta, onde um homem idoso e moreno estava acocorado, fumando um cachimbo preto de barro.