– Como vai, sr. Reuben Hayes? – perguntou Holmes.
– Quem são vocês e como descobriram tão depressa o meu nome? Disse o camponês com um brilho de desconfiança nos olhos espertos.
– Ora, ele está impresso na placa acima de sua cabeça. E fácil reconhecer um homem que é o dono da própria casa. Suponho que não tenha algo como uma carroça nos seus estábulos.
– Não, não tenho.
– Mal posso apoiar meu pé no chão.
– Não o ponha no chão.
– Mas não posso andar.
– Bem, então pule.
A atitude do sr. Reuben Hayes estava longe de ser amável, mas Holmes a encarou com um bom humor admirável.
– Olhe aqui, meu amigo – disse. – Isto é realmente um dilema muito desagradável para mim. Não vejo como continuar.
– Nem eu – disse o estalajadeiro mal-humorado.
– O assunto é muito importante. Eu lhe ofereceria 1 libra pelo uso de uma bicicleta.
O homem prestou mais atenção.
– Aonde querem ir?
– Para Holdernesse Hall.
– Amigos do duque, suponho? – disse o proprietário, observando nossas roupas manchadas de lama com olhos irônicos.
Holmes sorriu, complacente.
– De qualquer maneira, ele ficará contente em nos ver.
– Por quê?
– Porque lhe trazemos notícias de seu filho desaparecido.
O estalajadeiro teve um sobressalto visível.
– O quê, vocês estão na pista dele?
– Ele foi visto em Liverpool. Esperam encontrá-lo a qualquer hora.
De novo uma mudança perceptível passou pelo rosto forte e barbado. Ele ficou amável de repente.
– Tenho menos motivos para desejar o bem do duque do que muitos homens – disse – porque uma vez fui o cocheiro-chefe, e ele me tratou de modo cruel. Foi ele quem me pôs na rua sem explicações, por causa da palavra de um negociante de milho mentiroso. Mas fico contente em saber que o jovem lorde foi visto em Liverpool, e vou ajudá-los a levar a notícia até o Hall.
– Obrigado – disse Holmes. – Vamos comer algo primeiro. Depois pode trazer a bicicleta.
– Eu não tenho uma bicicleta.
Holmes mostrou uma libra.
– Já lhe disse, homem, que não tenho. Deixarei que levem dois cavalos até o Hall.
– Bem, bem – disse Holmes –, falaremos sobre isso depois que tivermos comido alguma coisa.
Quando ficamos sozinhos na cozinha de paredes de pedras, foi espantoso como o tornozelo estirado se recuperou depressa. Já era quase noite e não havíamos comido nada desde a manhã, de modo que gastamos um bom tempo em nossa refeição. Holmes estava perdido em seus pensamentos e uma ou duas vezes foi até a janela e olhou para fora, sério. Ela dava para um pátio miserável. No canto mais afastado havia uma forja, onde um rapaz sujo estava trabalhando. Do outro lado ficavam os estábulos. Holmes estava sentado após uma dessas excursões, quando de repente pulou de sua cadeira com uma exclamação.
– Por Deus, Watson, creio que conseguimos! – gritou. – Sim, sim, deve ser isso. Watson, lembra-se de ter visto alguma trilha de vacas hoje?
– Sim, várias.
– Onde?
– Ora, por todo lado. No brejo, e também na trilha, e perto do lugar onde o pobre Heidegger morreu.
– Exato. Agora, Watson, quantas vacas você viu no campo?
– Não me lembro de ter visto nenhuma.
– É estranho, Watson, que víssemos rastros durante todo o nosso trajeto, mas nem uma vaca. Muito estranho, Watson, hein?
– Sim, é estranho.
– Agora, Watson, faça um esforço de memória. Pode ver aqueles rastros na trilha?
– Sim, posso.
– Recorda-se de que os rastros eram algumas vezes assim, Watson – dispôs algumas bolinhas de pão deste modo – : : : : : – e outras assim – : . : . : . : . – e ocasionalmente deste jeito . . . . . . . Pode se lembrar disso?
– Não, não posso.
– Mas eu posso. Posso jurar que é assim. Mas voltaremos lá para verificar isso. Como fui cego, não confirmando minha conclusão.
– E qual é a sua conclusão?
– Apenas que existe uma vaca notável que anda, trota e galopa. Por Deus! Watson, não foi nenhum cérebro de taberneiro do interior que imaginou um como esse. A costa parece estar livre, a não ser por aquele rapaz na forja. Vamos dar uma escapada e ver o que pudermos.
Havia dois cavalos maltratados no estábulo em ruínas. Holmes levantou a pata traseira de um deles e riu.
– Ferraduras velhas, mas ferrado recentemente; ferraduras velhas, mas cravos novos. Este caso promete ser um clássico. Vamos passar por fora.
O rapaz continuava seu trabalho sem ligar para nós. Notei os olhos de Holmes virarem-se para a esquerda e para a direita, por entre os restos de ferro e madeira que se espalhavam pelo chão. Mas, de repente escutamos passos atrás de nós, e lá estava o dono da hospedaria, o cenho franzido sobre os olhos selvagens, as feições contorcidas pela raiva. Segurava uma pequena bengala de cabo metálico, e avançou de modo tão ameaçador que me senti confortado por ter meu revólver no bolso.
– Seus espiões do inferno! – gritou o homem. – O que estão fazendo aí?
– Ora, sr. Reuben Hayes – disse Holmes friamente –, alguém poderia pensar que o senhor está com medo de que descubramos alguma coisa.
O homem controlou-se com um esforço violento, e sua boca cruel abriu-se num sorriso falso, que era mais ameaçador que o seu olhar carrancudo.