Às 11 horas seguinte meu amigo e eu estávamos andando pela famosa alameda de teixos de Holdernesse Hall. Entramos pela magnífica porta elisabetana e fomos levados ao escritório de Sua Graça. Lá encontramos o sr. James Wilder, sério e cortês, mas com alguns vestígios daquele terror selvagem da noite ainda visíveis em seus olhos furtivos e na expressão crispada.
– Veio ver Sua Graça? Desculpe, mas o fato é que o duque não está lá muito bem. Ficou muito abalado com as notícias trágicas. Recebemos um telegrama do dr. Huxtable ontem à tarde, que nos informou da descoberta de vocês.
– Preciso ver o duque, sr. Wilder.
– Mas ele está no quarto dele.
– Então preciso ir ao quarto dele.
– Creio que ele está na cama.
– Vou vê-lo lá.
O jeito frio e implacável de Holmes mostrou ao secretário que era inútil discutir com ele.
– Muito bem, sr. Holmes, eu direi a ele que está aqui.
Depois de uma demora de uma hora, o grande nobre apareceu. Seu rosto estava mais cadavérico do que nunca, seus ombros estavam curvados e parecia ser um homem muito mais velho que na manhã anterior. Cumprimentou-nos com uma cortesia solene e sentou-se à sua escrivaninha, a barba vermelha caindo em ondas na mesa.
– E então, sr. Holmes? – disse.
Mas os olhos de meu amigo estavam fixos no secretário, que estava de pé atrás da cadeira do patrão.
– Creio, Sua Graça, que eu poderia falar mais francamente sem a presença do sr. Wilder.
O homem ficou pálido como um fantasma e lançou um olhar malévolo para Holmes.
– Se Sua Graça desejar...
– Sim, sim, seria melhor você ir. Agora, sr. Holmes, o que tem para dizer?
Meu amigo esperou até que a porta se fechasse atrás do secretário relutante.
– O fato, Sua Graça – disse –, é que o meu colega, dr. Watson, e eu temos a garantia do dr. Huxtable de que foi oferecida uma recompensa neste caso. Gostaria de ouvir a confirmação de seus próprios lábios.
– Certamente, sr. Holmes.
– Se fui informado corretamente, ela é de 5 mil libras para quem lhe disser onde está seu filho?
– Exatamente.
– E outras 1.000 para quem disser o nome da pessoa ou pessoas que o mantêm preso?
– Exatamente.
– Neste último estão incluídos, sem dúvida, não somente aqueles que o levaram, mas também aqueles que conspiram para que ele continue na situação atual?
– Sim, sim – exclamou o duque, impaciente. – Se fizer bem o seu trabalho, sr. Sherlock Holmes, não terá motivo para reclamar de um tratamento mesquinho.
Meu amigo esfregou as mãos magras com uma expressão de avidez que me surpreendeu, pois conhecia seus hábitos frugais.
– Creio que vejo o talão de cheques de Sua Graça sobre a mesa – ele disse. – Ficaria contente se fizesse um cheque de 6 mil libras. Talvez fosse melhor cruzá-lo. O Capital and Counties Bank, filial da Oxford Street, é o meu agente.
Sua Graça sentou-se austera e rigidamente na sua cadeira e olhou de modo severo para meu amigo.
– Isto é uma brincadeira, sr. Holmes? Não é nem de longe um assunto para divertimento.
– De modo algum, Sua Graça. Nunca fui tão sério em minha vida.
– O que significa, então?
– Quero dizer que ganhei a recompensa. Sei onde está seu filho e conheço pelo menos alguns daqueles que o mantêm preso.
A barba do duque ficou mais agressivamente vermelha do que nunca contra sua face branca, pálida.
– Onde ele está? – gaguejou.
– Está, ou estava na noite passada, no hotel Galo de Briga, a cerca de 3 quilômetros dos seus portões.
O duque recostou-se na sua cadeira.
– E quem o senhor acusa?
A resposta de Sherlock Holmes foi estarrecedora. Deu rapidamente um passo à frente e tocou o duque no ombro.
– Eu acuso o senhor – disse. – E agora, Sua Graça, eu lhe peço aquele cheque.
Nunca me esquecerei do aspecto do duque ao pular e jogar as mãos como alguém que está afundando num abismo. Depois, com um extraordinário esforço de autocontrole aristocrático, sentou-se e afundou o rosto nas mãos. Passaram-se alguns minutos antes que falasse.
– O que é que sabe? – perguntou afinal, sem levantar a cabeça.
– Eu os vi juntos ontem a noite.
– Alguém mais sabe, além do seu amigo?
– Não falei com mais ninguém.
O duque pegou uma caneta com a mão trêmula e abriu o talão de cheques.
– Vou honrar minha palavra, sr. Holmes. Farei o seu cheque, por mais inconveniente que seja para mim, a informação que conseguiu. Quando o oferecimento foi feito pela primeira vez, mal sabia do rumo que os acontecimentos poderiam tomar. Mas o senhor e seu amigo são homens discretos, não, sr. Holmes?
– Mal posso compreendê-lo, Sua Graça.
– Devo esclarecer tudo, sr. Holmes. Se apenas os senhores sabem desse incidente, não há motivo para que isso vá mais longe. Creio que 12 mil libras é a soma que lhe devo, não é?
Mas Holmes sorriu e sacudiu a cabeça.
– Temo, Sua Graça, que as coisas talvez não possam ser resolvidas tão facilmente. A morte do professor do colégio tem de ser explicada.
– Mas James não sabia nada daquilo. Não pode responsabilizá-lo por isso. Foi trabalho desse valentão brutal que ele teve o azar de empregar.