Nosso visitante era um homem extremamente atento, de 30 anos, vestido com um discreto terno de tweed, mas que conservava a postura ereta de alguém acostumado a usar uniforme. Eu reconheci logo Stanley Hopkins, um jovem inspetor de polícia, em cujo futuro Holmes tinha grandes esperanças, enquanto ele, por sua vez, demonstrava a admiração e o respeito de um aluno pelos métodos científicos do famoso amador. O rosto de Hopkins estava com uma expressão sombria, e ele se sentou com um ar de profundo desânimo.

– Não, obrigado, senhor. Eu tomei café antes de vir para cá. Passei a noite na cidade, porque vim ontem para fazer um relato.

– E o que você tinha para relatar?

– Um fracasso, senhor, um fracasso completo.

– Não fez nenhum progresso?

– Nenhum.

– Meu Deus! Preciso examinar esse assunto.

– Gostaria que fizesse isso, sr. Holmes. É a minha primeira grande oportunidade, e eu não sei o que fazer. Pelo amor de Deus, venha me dar uma ajuda.

– Bem, bem, acontece que eu já li todos os depoimentos disponíveis, inclusive  o relatório da investigação, com certo cuidado. Por falar nisso, o que acha daquela bolsa para tabaco encontrada no local do crime? Não há nenhuma pista ali?

Hopkins pareceu surpreso.

– A bolsa era do próprio homem. Suas iniciais estavam do lado de dentro. E era de pele de foca – e ele era um velho caçador de focas.

– Mas ele não tinha cachimbo.

– Não, senhor, não encontramos nenhum cachimbo. Na verdade, ele fumava muito pouco, e mesmo assim ele podia guardar um pouco de fumo para os seus amigos.

– Sem dúvida. Eu só mencionei isso porque, se eu estivesse lidando com o caso, usaria isso como ponto de partida da minha investigação. Mas o meu amigo, o dr. Watson, não sabe nada a respeito deste assunto, e não me faria mal nenhum ouvir novamente a seqüência dos fatos. Faça um resumo dos pontos principais.

Stanley Hopkins tirou um pedaço de papel do bolso.

– Tenho aqui algumas datas que lhes mostrarão a carreira do homem morto, o capitão Peter Carey. Nasceu em 1845 – 50 anos de idade. Era o mais ousado e bem-sucedido caçador de focas e baleias. Em 1883 comandou o pesqueiro a vapor Sea Unicorn, de Dundee. Fez então várias viagens sucessivas com êxito e no ano seguinte, 1884, se aposentou. Depois disso, viajou durante alguns anos e finalmente comprou uma pequena propriedade chamada Woodman’s Lee, perto de Forest Row, no Sussex. Viveu ali durante seis anos e lá morreu há uma semana.

– Havia alguns detalhes muito estranhos sobre o homem. Na sua vida comum, era um puritano convicto – um sujeito silencioso e sombrio. Ele morava com a esposa, sua filha de 20 anos e duas criadas. Estas duas eram trocadas constantemente, porque a situação nunca era muito animadora, e às vezes ficava insustentável. O homem estava permanentemente bêbado e, quando lhe subia à cabeça, era um perfeito demônio. Sabia-se que levava a esposa e a filha para fora de casa no meio da noite e as açoitava no parque até que a vila inteira fosse despertada pelos gritos delas.

– Uma vez ele foi intimado por causa de uma tentativa feroz de agressão contra o velho vigário, que fora visitá-lo para queixar-se de sua conduta. Em suma, sr. Holmes, teria de procurar muito para encontrar um homem mais perigoso que Peter Carey, e ouvi dizer que agia da mesma maneira quando comandava seu navio. Era conhecido pelo apelido de Black Peter, e recebeu o nome não só por causa de sua tez morena e a cor de sua barba imensa, mas também por suas extravagâncias que eram o terror de todos à sua volta. Não preciso dizer que era detestado e evitado por todos os vizinhos, e que não ouvi uma só palavra de pesar sobre seu fim terrível.

– Deve ter lido no relatório do inquérito sobre a cabine do homem, sr. Holmes, mas talvez seu amigo não saiba disso: ele mesmo construiu uma casinha de madeira – sempre a chamou de “cabine” – a algumas centenas de metros de sua casa, e era ali que dormia todas as noites. Era uma cabana pequena de um único cômodo de 5 metros por 3. Guardava a chave no bolso, fazia sua própria cama, ele mesmo a limpava e não permitia que outros pés atravessassem a soleira. Ela tem janelas pequenas de cada lado, cobertas por cortinas e que nunca são abertas. Uma dessas janelas dava para a estrada principal e quando havia luz ali à noite, as pessoas a apontavam para os outros e ficavam imaginando o que Black Peter estaria fazendo. Esta é a janela, sr. Holmes, que nos deu um dos poucos fragmentos de evidência que apareceram no inquérito.

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