– Tenho a opinião, Sua Graça, de que quando um homem se envolve num crime, é moralmente culpado de qualquer outro crime que venha a ocorrer em conseqüência do primeiro.
– Moralmente, sr. Holmes. Sem dúvida está certo. Mas provavelmente não aos olhos da lei. Um homem não pode ser condenado por um assassinato a que não esteve presente, e ao qual abomina e detesta tanto quanto o senhor. Assim que soube do fato, ele me fez uma confissão completa, de tanto remorso e horror que sentia. Não perdeu uma hora para despedir o assassino. Oh, sr. Holmes, o senhor tem de salvá-lo – tem de salvá-lo! Peço-lhe que o salve! – O duque abandonara um último esforço de autocontrole e estava andando de um lado para o outro no quarto com o rosto transtornado e as mãos crispadas no ar. Finalmente controlou-se e sentou-se novamente à escrivaninha. – Aprecio sua conduta, por ter vindo aqui antes de falar com mais alguém – disse. – Pelo menos, podemos discutir como minimizar este escândalo terrível.
– Exato – disse Holmes. – Creio, Sua Graça, que isso só pode ser feito com absoluta franqueza entre nós. Estou disposto a ajudar Sua Graça com o máximo de minha habilidade, mas, para fazer isso, preciso entender todo o caso até o último detalhe. Percebi que as suas palavras se referiam ao sr. James Wilder, e que ele não é o assassino.
– Não, o assassino fugiu.
Sherlock Holmes sorriu discretamente.
– Sua Graça não deve ter ouvido praticamente nada sobre minha reputação, ou não imaginaria que seja tão fácil fugir de mim. O sr. Reuben Hayes foi preso em Chesterfield, com base na minha informação, às 23 horas da noite passada. Recebi um telegrama do chefe da polícia local antes de sair do colégio esta manhã.
O duque recostou-se em sua cadeira e olhou assombrado para o meu amigo.
– Parece ter poderes sobre-humanos – disse. – Então Reuben Hayes foi preso? Fico contente em ouvir isso, se não afetar o destino de James.
– Seu secretário?
– Não, senhor, meu filho.
Foi a vez de Holmes olhar espantado.
– Confesso que isso é inteiramente novo para mim, Sua Graça. Peço-lhe que seja mais explícito.
– Não esconderei nada do senhor. Concordo com o senhor que a franqueza absoluta, por mais dolorosa que seja para mim, é a melhor política nesta situação desesperada à qual a tolice e o zelo de James nos deixaram. Quando eu era mais jovem, sr. Holmes, amei com um amor que só ocorre uma vez na vida. Pedi a dama em casamento, mas ela recusou, alegando que essa união arruinaria minha carreira. Se ela tivesse vivido, eu com certeza nunca teria me casado com outra pessoa. Ela morreu e deixou esse filho único que, por ela, abriguei, e dei a ele carinho e cuidados. Não pude assumir a paternidade dele diante do mundo, mas lhe dei a melhor educação, e desde que se tornou adulto eu o mantenho perto de mim. Ele descobriu meu segredo, e presumiu desde então que tem direitos sobre mim e julgou-se com poder de provocar um escândalo que seria desastroso para mim. Sua presença tem relação com o desfecho infeliz do meu casamento. Acima de tudo, odiava meu jovem herdeiro legítimo desde o início, com um ódio persistente. Pode perguntar por que, nestas circunstâncias, ainda conservo James sob o meu teto. Respondo que foi porque posso ver o rosto de sua mãe no dele, e que em consideração a ela não há fim para o meu longo sofrimento. Todos os seus bonitos gestos também – não há um só gesto dele que não sugira nem me traga à lembrança. Não pude mandá-lo embora. Mas temia tanto que ele pudesse fazer mal a Arthur – isto é, lorde Saltire –, que o despachei por segurança para o colégio do dr. Huxtable.
– James entrou em contato com esse sujeito, Hayes, porque ele era um arrendatário meu, e James agia como cobrador. O sujeito foi um patife desde o começo mas, de algum modo extraordinário, James ficou íntimo dele. Teve sempre uma queda por companhias de baixo nível. Quando James decidiu raptar lorde Saltire, foi dos serviços deste homem que se serviu. Lembra-se que escrevi a Arthur no último dia. Bem, James abriu a carta e incluiu uma nota pedindo a Arthur que o encontrasse num pequeno bosque chamado Ragged Shaw, que fica perto do colégio. Usou o nome da duquesa, e desse modo conseguiu que o rapaz viesse. Naquela noite James foi de bicicleta – estou lhe contando o que ele mesmo me confessou – e disse a Arthur, que encontrou no bosque, que a mãe dele queria vê-lo, que ela o estava esperando no campo e que se voltasse ao bosque à meia-noite encontraria um homem com um cavalo, que o levaria até ela. O pobre Arthur caiu na armadilha. Foi ao encontro marcado e topou com esse Hayes, que trazia um pônei. Arthur montou, e foram juntos. Parece – embora James só tenha sabido ontem – que eles foram perseguidos, que Hayes abateu seu perseguidor com sua bengala, e que o homem morreu devido aos ferimentos. Hayes levou Arthur para a sua hospedaria, o Galo de Briga, onde foi confinado num quarto do andar superior, aos cuidados da sra. Hayes, uma mulher bondosa, mas inteiramente dominada pelo marido violento.