– Não, não podia fazer isso, Watson – disse, quando entramos nos nossos aposentos. – Depois que o mandado fosse expedido, nada neste mundo o salvaria. Uma ou duas vezes em minha carreira senti que causei mais prejuízo real com minha descoberta do criminoso do que ele jamais provocou com seu crime. Aprendi a prudência agora, prefiro fazer brincadeiras com a justiça da Inglaterra do que com minha própria consciência. Vamos saber um pouco mais antes de agirmos.
Antes do anoitecer, recebemos a visita de Stanley Hopkins. As coisas não estavam andando bem para ele.
– Acredito que o senhor é um mágico, sr. Holmes. Algumas vezes chego a pensar que o senhor tem poderes que não são humanos. Agora, como diabos pôde saber que a prataria roubada estava no fundo daquele lago?
– Eu não sabia.
– Mas me aconselhou a examiná-lo.
– Conseguiu, então?
– Sim, consegui.
– Estou contente por tê-lo ajudado.
– Mas não me ajudou. Tornou o caso ainda mais difícil. Que espécie de ladrões são esses que roubam prataria e a jogam no lago mais próximo?
– Foi com certeza um comportamento bastante excêntrico. Apenas desenvolvi a idéia de que se a prataria foi levada por pessoas que não a queriam – que só a levaram para disfarçar, como de fato aconteceu –, ficariam ansiosos para se livrar dela.
– Mas por que tal idéia passou pela sua cabeça?
– Bom, pensei que isso era possível. Quando saíram pela porta-janela, lá estava o lago com um pequeno e tentador buraco no gelo, bem diante dos seus narizes. Poderia haver um esconderijo melhor?
– Ah, um esconderijo – isso é melhor! – exclamou Stanley Hopkins. – Sim, sim, vejo tudo agora! Era cedo, havia gente nas ruas, ficaram com medo de serem vistos com a prataria, de modo que afundaram os objetos no lago, pretendendo voltar para apanhar tudo quando não houvesse risco. Excelente, sr. Holmes – isto é melhor do que sua idéia de disfarce.
– Talvez, você tem uma teoria admirável. Não tenho dúvida de que minhas próprias idéias são bem absurdas, mas deve admitir que acabaram descobrindo a prata.
– Sim, senhor – sim. Tudo obra sua. Mas tive um péssimo contratempo.
– Um contratempo?
– Sim, sr. Holmes. A gangue de Randall foi presa em Nova York esta manhã.
– Meu Deus, Hopkins! Isto com certeza derruba sua teoria de que eles cometeram um assassinato em Kent na noite passada.
– É desastroso, sr. Holmes – absolutamente desastroso. Mas existem outras gangues de três elementos além dos Randall, ou deve ser alguma nova gangue da qual a polícia nunca ouviu falar.
– Talvez, é perfeitamente possível. O quê! Está indo embora?
– Sim, sr. Holmes, não poderei descansar enquanto não chegar ao fundo desse negócio. Não tem nenhuma pista para me dar?
– Já lhe dei uma.
– Qual?
– Ora, eu sugeri um disfarce.
– Mas por quê, sr. Holmes, por quê?
– Ah, essa é a questão, é claro. Mas recomendo que pense na idéia. Provavelmente vai descobrir que há alguma coisa nela. Não vai ficar para jantar? Bem, adeus, e informe-nos sobre o andamento do caso.
O jantar havia terminado e a mesa já fora tirada quando Holmes voltou a tocar no assunto. Acendera seu cachimbo, e os pés metidos em chinelos estavam próximos ao agradável calor da lareira. De repente olhou para seu relógio.
– Espero novidades, Watson.
– Quando?
– Agora – dentro de poucos minutos. Aposto como pensou que agi mal com Stanley Hopkins agora há pouco.
– Confio em seu julgamento.
– Uma resposta muito sensata, Watson. Deve encarar isto deste modo: o que eu sei não é oficial, o que ele sabe é oficial. Tenho direito a um julgamento pessoal, mas ele não. Ele deve revelar tudo, ou será um traidor do seu serviço. Num caso duvidoso, eu não o deixaria em situação constrangedora, de modo que guardo minhas informações até que eu tenha uma idéia mais clara do assunto.
– Mas quando será isso?
– Já está na hora. Você agora vai presenciar a última cena de um drama pequeno e notável.
Houve um ruído na escada, e nossa porta foi aberta para deixar entrar o exemplar masculino mais bonito que já passara por ela. Era um jovem muito alto, bigode dourado, olhos azuis, com uma pele que deve ter sido bronzeada pelo sol tropical, e um passo elástico que demonstrava ser o corpo enorme tão ágil quanto forte. Fechou a porta e ficou parado com as mãos fechadas e a respiração ofegante, mostrando uma certa emoção contida.
– Sente-se, capitão Crocker. Recebeu meu telegrama?
Nosso visitante afundou-se numa poltrona, mirando-nos com um olhar de curiosidade.
– Recebi seu telegrama e vim no horário que me pediu. Ouvi dizer que foi até o escritório. Não havia jeito de evitá-lo. Vou ouvir o pior. O que vai fazer comigo? Prender-me? Fale, homem! Não pode ficar sentado aí e brincar comigo como um gato com um rato.
– Dê-lhe um charuto – disse Holmes. – Morda-o, capitão Crocker, e não deixe seus nervos se descontrolarem. Eu não estaria sentado aqui fumando com o senhor se achasse que era um criminoso comum, pode estar certo disto. Seja franco comigo e podemos fazer algo de bom. Brinque comigo e eu o destruirei.
– O que quer que eu faça?