– Que me faça um relato verdadeiro de tudo que aconteceu em Abbey Grange na noite passada – um relato verdadeiro, lembro-lhe, sem acrescentar nem omitir nada. Já sei tanta coisa que se você se afastar um centímetro do correto, soprarei este apito de polícia da minha janela e o caso escapará de minhas mãos para sempre.

O marinheiro pensou um pouco. Depois bateu na perna com sua grande mão bronzeada.

– Vou arriscar – exclamou. – Acredito que o senhor seja um homem leal e de palavra, e vou contar-lhe a história toda. Mas antes vou dizer uma coisa. No que me toca, não me arrependo de nada e não tenho medo de nada; faria tudo outra vez e ficaria orgulhoso. Mas é a dama, Mary – Mary Fraser – porque eu jamais a chamarei por nome maldito.

Quando penso que a estou envolvendo em problemas, eu, que daria a minha vida apenas para vê-la sorrir, fico arrasado. Ainda assim – ainda assim – o que mais poderia ser feito? Eu lhes contarei minha história, cavalheiros, e então vou lhes perguntar, de homem para homem, o que mais poderia ter feito?

– Devo retroceder um pouco. O senhor parece saber de tudo, portanto suponho que saiba que a conheci quando era uma passageira e eu primeiro oficial do Rock of Gibraltar. Desde o primeiro dia, foi a única mulher para mim. Cada dia daquela viagem eu a amava mais e desde então tenho me ajoelhado na calada da noite e beijado o convés daquele navio porque sabia que seus pés amados tinham caminhado por ele. Nunca teve um compromisso comigo. Tratava-me melhor do que qualquer mulher já tratara um homem. Não tenho queixas a fazer. Tudo era amor de minha parte e companheirismo e amizade da parte dela. Quando nos separamos, ela era uma mulher livre, mas eu nunca poderia ser um homem livre de novo.

– Quando voltei do mar na vez seguinte, soube do casamento dela. Ora, por que não poderia se casar com quem quisesse? Título e dinheiro – quem poderia lidar com isso melhor do que ela? Nascera para tudo o que é bonito e luxuoso. Não fiquei magoado com seu casamento. Não fui tão egoísta a esse ponto. Apenas fiquei contente pela boa sorte que atravessou seu caminho, e que ela não tivesse ido atrás de um marujo sem dinheiro. Foi assim que amei Mary Fraser.

– Bem, nunca pensei que iria vê-la novamente, mas na última viagem fui promovido, e o novo navio ainda não havia sido lançado ao mar, de modo que tive de esperar por alguns meses com meu pessoal em Sydenham. Um dia, no campo, encontrei Theresa Wright, sua velha criada, que me contou tudo sobre ela, sobre ele, sobre todas as coisas. Digo-lhes, cavalheiros, aquilo quase me deixou maluco. Esse cão bêbado ousou levantar a mão para ela, cujos sapatos ele não merecia lamber! Encontrei-me de novo com Theresa. Depois encontrei-me com a própria Mary – e mais uma vez. Então deixamos de nos encontrar. Mas outro dia eu soube que minha viagem iria começar dentro de uma semana, e decidi vê-la mais uma vez antes de partir. Theresa sempre foi minha amiga, porque amava Mary e odiava aquele vilão quase tanto quanto eu. Foi ela que me falou sobre os hábitos da casa. Mary costumava ficar sentada lendo em seu quarto, no andar térreo. Aproximei-me silenciosamente naquela noite e bati na janela. A princípio ela não quis abrir, mas eu sabia que agora ela me amava e não podia deixar que eu ficasse ali fora naquela noite gelada. Ela sussurrou-me para dar a volta até a grande janela da frente, e a encontrei aberta, de modo a me deixar entrar na sala de jantar. Novamente ouvi de seus próprios lábios coisas que fizeram meu sangue ferver, e de novo amaldiçoei esse bruto que maltratava a mulher que eu amava. Bem, cavalheiros, estava com ela perto da janela, na maior inocência, Deus é meu juiz, quando ele entrou como um louco na sala, chamou-a do nome mais ofensivo que se pode usar para uma mulher, e a espancou no rosto com a bengala que tinha na mão. Eu havia agarrado o atiçador e foi uma luta justa entre nós dois. Veja aqui, no meu braço, onde foi o primeiro golpe. Então foi a minha vez, e o ataquei como se fosse uma abóbora podre. Acha que me arrependo? Não! Era a vida dele ou a minha, mas muito mais que isso, era a vida dele ou a dela, pois como podia deixá-la em poder desse louco? Foi assim que o matei. Fiz mal? Bem, então o que cada um dos senhores teria feito, se estivesse em minha situação?

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