segunda mancha” poderia ser publicada no momento oportuno, convencendo-o de que era bastante apropriado que esta longa série de episódios culminasse no caso internacional mais importante para o qual já fora chamado, que por fim consegui o seu consentimento para que um relato do incidente cuidadosamente guardado em segredo fosse afinal divulgado para o público. Se, ao contar a história, eu parecer um tanto vago em certos detalhes, o público rapidamente entenderá que há um ótimo motivo para minha reticência.
Portanto, foi num ano, e mesmo numa década, que devem permanecer indeterminados, que numa manhã de terça-feira, no outono, encontramos dois visitantes de fama européia entre as paredes dos nossos modestos aposentos da Baker Street. O primeiro, austero, nariz protuberante, olhos de águia e aspecto dominador, não era outro senão o ilustre lorde Bellinger, duas vezes primeiro-ministro da Inglaterra. O outro, moreno, de traços nítidos, elegante, quase ainda na meia-idade, e dotado de beleza de corpo e alma, era o right honourable Trelawney Hope, secretário dos Assuntos Europeus, e o estadista mais destacado do país. Sentaram-se lado a lado no sofá cheio de papéis, e era fácil ver pelos rostos cansados e ansiosos que um assunto da maior importância os trouxera até ali. As mãos magras e cheias de veias azuladas do primeiro-ministro agarravam o cabo de marfim de seu guarda-chuva, e seu rosto ossudo e austero olhava sombriamente de Holmes para mim. O secretário dos Assuntos Europeus cofiava nervosamente o bigode e brincava com o fecho da corrente do relógio.
– Quando descobri minha perda, sr. Holmes, às oito horas, informei logo o primeiro-ministro. Foi por sugestão dele que viemos procurar o senhor.
– Informaram a polícia?
– Não, senhor – disse o primeiro-ministro, no seu conhecido estilo rápido e decidido. – Não fizemos isso, nem é possível fazer. Informar a polícia seria, em última análise, um meio de divulgar para o público. É exatamente isso que desejamos evitar em particular.
– E por quê, senhor?
– Porque o documento em questão é tão importante que a sua publicação poderia muito facilmente – quase posso dizer provavelmente – causar complicações na Europa no mesmo instante. Não seria exagero dizer que a paz ou a guerra dependem desse documento. Talvez não o recuperemos mais, a não ser que a sua recuperação seja feita com o máximo segredo, pois tudo o que desejam aqueles que o levaram é que seu conteúdo seja do conhecimento de todos.
– Entendo. Agora, sr. Trelawney Hope, ficaria muito agradecido se me contasse exatamente em que circunstâncias o documento desapareceu.
– Isso pode ser feito em muito poucas palavras, sr. Holmes. A carta – pois era uma carta de uma potência estrangeira – foi recebida seis dias atrás. Sua importância era tão grande que nunca a deixei em meu cofre, mas eu a levava todas as noites para minha casa, em Whitehall Terrace, guardando-a no meu quarto, trancada numa caixa de correspondência. Estava lá na noite passada. Disto tenho certeza. Eu abri a caixa enquanto me vestia para jantar e vi o documento ali dentro. Esta manhã ele havia sumido. A caixa de correspondência ficara ao lado do copo sobre meu toucador a noite inteira. Tenho sono leve, e minha esposa também. Nós dois estamos dispostos a jurar que ninguém poderia ter entrado no quarto durante a noite. Ainda assim, repito que o papel sumiu.
– A que horas o senhor jantou?
– Às 19:30h.
– Isto foi quanto tempo antes de ir para a cama?
– Minha esposa tinha ido ao teatro. Esperei por ela. Eram 23:30h quando fomos para o nosso quarto.
– Então durante quatro horas a caixa de correspondência ficou sem vigilância?
– Ninguém tem permissão para entrar naquele aposento a não ser a faxineira pela manhã, e meu criado de quarto, ou a criada de minha esposa, durante o resto do dia. São todos criados fiéis que estão conosco há algum tempo. Além disso, nenhum deles poderia saber que havia algo mais valioso do que os papéis comuns do departamento naquela caixa de correspondência.
– Quem sabia da existência daquela carta?
– Ninguém na casa.
– Certamente sua esposa sabia.
– Não, senhor. Não comentei nada com minha mulher até que perdi o papel esta manhã.
O primeiro-ministro balançou a cabeça em sinal de aprovação.
– Já conheço há muito tempo, senhor, o seu senso de dever público – disse ele. – Estou convencido de que, no caso de um segredo desta importância, ele se sobreporia aos mais íntimos laços domésticos.
O secretário se inclinou.
– Não me faz mais do que justiça, senhor. Até esta manhã nunca disse uma só palavra à minha esposa sobre o assunto.
– Ela poderia ter adivinhado?
– Não, sr. Holmes, não poderia – nem qualquer outra pessoa.
– Já perdeu algum documento antes?
– Não, senhor.
– Quem mais na Inglaterra sabia da existência dessa carta?