– Todos os membros do gabinete foram informados a respeito dela ontem, mas o compromisso de segredo que cerca todas as reuniões do gabinete foi reforçado pela advertência solene do primeiro-ministro. Meu Deus, pensar que em poucas horas eu mesmo o perderia! – Seu belo rosto estava retorcido num espasmo de desespero, e suas mãos puxavam os cabelos. Por um momento tivemos um vislumbre de um homem natural, impulsivo, ardente e bastante sensível. Mas logo a máscara aristocrática foi recolocada, e a voz suave retornou. – Além dos membros do gabinete, existem dois, possivelmente três funcionários do ministério que sabiam da carta. Ninguém mais na Inglaterra, sr. Holmes, eu lhe garanto.

– Mas, e fora?

– Acredito que ninguém fora da Inglaterra a viu, a não ser o homem que a escreveu. Estou convencido de que seus ministros... que os canais oficiais normais não foram utilizados.

Holmes refletiu durante algum tempo.

– Agora, senhor, devo lhe perguntar mais detalhadamente o que é este documento, e por que seu desaparecimento teria conseqüências tão graves?

Os dois homens do governo trocaram um rápido olhar e as sobrancelhas cerradas do primeiro-ministro se franziram.

– Sr. Holmes, o envelope é comprido, fino, com uma cor azul clara. Tem um selo de lacre vermelho impresso com um leão agachado. Está endereçado, numa caligrafia grande e vigorosa, para o...

– Receio, senhor – disse Holmes – que, por mais interessantes e mesmo essenciais que esses detalhes possam ser, minha investigação deve ir às raízes das coisas. O que era a carta?

– Isso é um segredo de estado da maior importância, e receio não poder contar-lhe, nem penso que isso seja necessário. Se com a ajuda dos poderes que diz possuir o senhor conseguir achar esse envelope que descrevi, terá prestado um bom serviço ao seu país, e receberá a recompensa que pudermos conceder.

Sherlock Holmes levantou-se com um sorriso.

– Os senhores são dois dos homens mais ocupados do país – disse –, e da minha maneira modesta também tenho muitos compromissos. Sinto muito não poder ajudá-los neste assunto, e qualquer continuação desta entrevista seria uma perda de tempo.

O primeiro-ministro levantou-se num pulo com aquele brilho forte e intenso nos olhos profundos diante dos quais um gabinete havia se atemorizado. – Não estou acostumado, senhor – começou, mas controlou sua raiva e voltou a sentar-se. Durante um minuto ou mais ficamos em silêncio. Então o velho estadista encolheu os ombros.

– Devemos aceitar suas condições, sr. Holmes. Sem dúvida está certo, e é insensato esperar que aja sem confiarmos inteiramente no senhor.

– Concordo com o senhor – disse o jovem.

– Então lhe contarei, confiando em sua honra e na de seu colega, dr. Watson. Apelarei também para seu patriotismo, pois não posso imaginar maior desgraça para o país do que a divulgação desse caso.

– Pode confiar plenamente em nós.

– A carta, então, vem de um certo potentado estrangeiro que foi incomodado por alguns recentes acontecimentos coloniais deste país. Foi escrita apressadamente e sob sua própria responsabilidade. Investigações mostraram que seus ministros não sabem de nada sobre isso. Ao mesmo tempo, está redigida de uma maneira tão imprópria e certas frases nela têm um caráter tão provocador, que sua publicação resultaria, sem dúvida, no mais perigoso estado de exaltação neste país. Haveria tamanha agitação, senhor, que eu não hesitaria em dizer que menos de uma semana depois da publicação daquela carta este país estaria envolvido numa grande guerra.

Holmes escreveu um nome numa folha de papel e o entregou ao primeiro-ministro.

– Exatamente. Foi ele. E é esta carta – esta carta que pode muito bem significar o gasto de milhões e o desperdício de centenas de milhares de vidas humanas – que foi perdida desta maneira inexplicável.

Comunicou ao remetente?

– Sim, senhor, enviamos um telegrama em código.

– Talvez ele deseje a publicação da carta.

– Não, senhor, temos fortes motivos para acreditar que ele já compreende que agiu de maneira indiscreta e precipitada. Seria um golpe maior para ele e para seu país do que para nós, se essa carta for divulgada.

– Se é assim, a quem interessa que essa carta seja divulgada? Por que alguém desejaria roubá-la ou publicá-la?

– Aí, sr. Holmes, o senhor entra nas áreas da alta política internacional. Mas se considerar a situação européia, não terá dificuldades em perceber o motivo. A Europa inteira é um campo armado. Existem duas ligas que fazem um equilíbrio justo do poderio militar. A Grã-Bretanha mantém a balança. Se entrasse em guerra contra uma confederação, isso garantiria a supremacia da outra, quer entrassem quer não na guerra. Percebeu?

– Muito claramente. Então interessa aos inimigos desse potentado possuir e publicar essa carta, a fim de provocar um rompimento de relações entre o país dele e o nosso?

– Sim, senhor.

– E para quem esse documento seria enviado se caísse nas mãos de um inimigo?

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