Os cavalos branco e negro giraram como amantes numa dança das colheitas, com os cavaleiros atirando aço um ao outro em vez de beijos. O machado longo cintilou, e a maça de guerra rodopiou. Ambas as armas estavam embotadas, mas, mesmo assim, causavam um terrível estrondo. Sem escudo, o cavaleiro azul estava ficando com a pior parte. Sor Loras fazia chover golpes sobre sua cabeça e seus ombros, aos gritos de “Jardim de Cima!” vindos da multidão. O outro respondia com a maça, mas, onde quer que a bola chegasse, Sor Loras interpunha seu escudo verde entalhado, adornado com três rosas douradas. Quando o machado atingiu a mão do cavaleiro azul na preparação de um golpe e arrancou dele a maça de armas, a multidão berrou como um animal no cio. O Cavaleiro das Flores ergueu o machado para o golpe final.

O cavaleiro azul lançou-se sobre ele. Os garanhões esbarraram um no outro, a cabeça embotada do machado esmagou-se contra a placa de peito azul arranhada… Mas, de algum modo, o cavaleiro azul conseguiu agarrar o cabo com dedos enluvados em aço. Arrancou-o das mãos de Sor Loras, e de repente os dois estavam lutando sem armas em cima das montarias e um instante depois caíam. Quando os cavalos se afastaram, estatelaram-se no chão com uma força de sacudir os ossos. Loras Tyrell, que ficou por baixo, sofreu com o maior peso do impacto. O cavaleiro azul desembainhou uma longa adaga e abriu o visor de Tyrell. O bramido da multidão era alto demais para Catelyn ouvir o que Sor Loras dissera, mas ela pôde ver a palavra nos seus lábios rachados e ensanguentados: Rendo-me.

O cavaleiro azul ficou em pé, meio cambaleante, e levantou a adaga na direção de Renly Baratheon, a saudação de um campeão ao seu rei. Escudeiros entraram como flechas no campo a fim de ajudar o cavaleiro vencido a erguer-se. Quando tiraram seu elmo, Catelyn ficou surpresa ao ver como ele era novo. Não podia ser dois anos mais velho do que Robb. O rapaz podia ser tão agradável à vista como a irmã, mas o lábio rachado, os olhos desfocados e o sangue pingando através do cabelo emaranhado dificultavam a certeza de tal conclusão.

– Aproxime-se – disse o Rei Renly ao campeão.

Este coxeou na direção da galeria. De perto, a brilhante armadura azul parecia bem menos magnífica; mostrava marcas por todo lado, os amassados de maças e martelos de guerra, as longas ranhuras deixadas por espadas, lascas no esmalte da placa de peito e do elmo. O manto se pendurava em farrapos. Julgando pela maneira como se movia, o homem lá dentro não estava menos desgastado. Algumas vozes saudavam-no com gritos de “Tarth!” e, estranhamente, “Uma Beleza! Uma Beleza!”, mas a maior parte da assistência estava em silêncio. O cavaleiro azul ajoelhou perante o rei.

– Graça – disse, com a voz abafada pelo elmo amassado.

– És tudo o que o senhor seu pai afirmou que seria – a voz de Renly atravessava o campo. – Vi Sor Loras ser derrubado uma vez ou duas, mas nunca propriamente dessa forma.

– Aquilo não foi uma derrubada correta – queixou-se um arqueiro bêbado que estava por perto, com uma rosa Tyrell costurada no justilho. – Um truque vil, isso de puxar o homem para baixo.

A aglomeração começava a se tornar menos compacta.

– Sor Colen – disse Catelyn ao seu acompanhante –, quem é aquele homem e por que gostam tão pouco dele?

Sor Colen franziu a testa:

– Porque não é homem nenhum, senhora. Aquela é Brienne de Tarth, filha de Lorde Selwyn, a Estrela da Tarde.

Filha? – Catelyn ficou horrorizada.

– Chamam-na Brienne, a Beleza… embora não na frente dela, com receio de serem chamados a defender essas palavras com os corpos.

Catelyn ouviu Rei Renly declarar a Senhora Brienne de Tarth a vencedora da grande luta em Ponteamarga, a última a permanecer montada entre cento e dezesseis cavaleiros.

– Como campeã, pode me pedir qualquer favor que desejar. Se estiver ao meu alcance concedê-lo, o farei certamente.

– Vossa Graça – Brienne respondeu –, peço a honra de um lugar na sua Guarda Arco-Íris. Desejo ser um dos seus sete, dedicar minha vida à sua, ir aonde for, cavalgar ao seu lado e mantê-lo a salvo de todo o mal.

– Concedido – o rei respondeu. – Erga-se e tire o elmo.

Ela fez o que lhe foi pedido. E quando o elmo foi erguido, Catelyn compreendeu as palavras de Sor Colen.

Chamavam-na de Beleza… mas caçoavam. O cabelo sob o visor era um ninho de esquilo de palha suja, e o rosto… os olhos de Brienne eram grandes e muito azuis, olhos de menininha, confiantes e sem malícia, mas o resto… seus traços eram brutos e grosseiros, os dentes, proeminentes e tortos, a boca grande demais, os lábios tão grossos que pareciam inchados. Um milhar de sardas salpicava suas bochechas e sua testa, e o nariz tinha sido quebrado mais do que uma vez. O coração de Catelyn encheu-se de piedade. Existe na terra alguma criatura mais infeliz do que uma mulher feia?

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