– Há homens que
Bran disse a Meera Reed exatamente isso quando ela veio visitá-lo ao anoitecer, enquanto ele estava sentado no banco de janela vendo as luzes nascendo, tremulando.
– Lamento o que aconteceu com os lobos. Verão não devia ter tentado machucar Jojen, mas Jojen também não devia ter dito tudo aquilo sobre os meus sonhos. O corvo mentiu quando disse que eu podia voar, e seu irmão também mentiu.
– Ou talvez seu meistre esteja errado.
– Não está. Até meu pai confiava em seus conselhos.
– Seu pai o escutava, não tenho dúvidas. Mas, no fim, decidia por si próprio. Bran, você me deixa contar um sonho que Jojen sonhou sobre você e seus irmãos adotivos?
– Os Walder não são meus irmãos.
Ela não prestou atenção.
– Você estava sentado à mesa do jantar, mas, em vez de um criado, foi Meistre Luwin quem lhe trouxe a comida. Serviu-o a porção de rei do assado, com a carne malpassada e sangrando, mas com um saboroso cheiro que deu água na boca de todo mundo. A carne que serviu aos Frey era velha, cinzenta e morta. Mas eles gostaram do seu jantar mais do que você do seu.
– Não entendo.
– Meu irmão diz que entenderá. Quando entender, voltaremos a conversar.
Bran ficou quase com medo de se sentar para jantar naquela noite, mas, quando o fez, o que puseram à sua frente foi empadão de pombo. A todos os outros foi servido o mesmo, e não viu nada de errado na comida que serviram aos Walder.
– Mas não há – ele disse em voz alta na escuridão da sua cama. – Não há magia, e as histórias são só histórias.
E ele nunca andaria, nem voaria, nem seria um cavaleiro.
Tyrion
As esteiras arranhavam as solas de seus pés nus.
– Meu primo escolhe uma estranha hora para vir me visitar – disse Tyrion a um Podrick Payne confuso pelo sono, que sem dúvida esperava se queimar por acordá-lo. – Leve-o para o aposento privado e diga-lhe que desço já.
Ao ver o negrume na janela, calculou que já passava muito da meia-noite.
Lavou o rosto com um pouco de água morna tirada da bacia que estava ao lado da cama e demorou-se, acocorado no sanitário, sentindo o ar frio da noite na pele nua. Sor Lancel tinha dezesseis anos, e não era conhecido pela paciência. Que esperasse e ficasse mais ansioso com a espera. Quando terminou de esvaziar as tripas, Tyrion enfiou-se num roupão e, com a mão, despenteou o cabelo fino e louro, para que parecesse mais ter sido acordado.
Lancel passeava em frente às cinzas na lareira, vestido de veludo vermelho cortado com submangas de seda negra, um punhal incrustado de joias e uma bainha dourada pendendo do cinto.
– Primo – Tyrion o saudou. – Suas visitas são demasiado raras. A que devo este imerecido prazer?
– Sua Graça, a Rainha Regente enviou-me para lhe ordenar que liberte o Grande Meistre Pycelle – Sor Lancel mostrou a Tyrion uma fita carmesim, com o selo leonino de Cersei impresso em cera dourada. – Aqui está a sua procuração.