Mas lembrava-se de Lorde Cerwyn. Suas terras ficavam próximas de Winterfell, e ele e o filho Cley tinham sido visitas frequentes. Mas o destino determinou que ele fosse o único cativo que nunca era visto; encontrava-se acamado numa cela da torre, recuperando-se de um ferimento. Ao longo de dias e mais dias, Arya tentou planejar um modo de passar pelos guardas da porta, a fim de visitá-lo. Se a reconhecesse, estaria obrigado pela honra a ajudá-la. Um senhor teria certamente ouro, todos eles tinham; e talvez pagasse a algum dos mercenários de Lorde Tywin para levá-la até Correrrio. Seu pai sempre dissera que a maior parte dos mercenários trairia quem quer que fosse a troco de ouro suficiente.

Então, uma manhã, Arya vislumbrou três mulheres com o hábito cinza encapuzado das irmãs silenciosas carregando um cadáver em sua carroça. O corpo encontrava-se envolto num manto da melhor seda, decorada com o símbolo de um machado de batalha. Quando Arya perguntou quem era, um dos guardas disse-lhe que Lorde Cerwyn tinha morrido. As palavras foram como um pontapé em sua barriga. Ele nunca teria podido ajudá-la, de qualquer maneira, pensou, enquanto as irmãs conduziam a carroça através do portão. Ele nem sequer conseguiu se ajudar, aquele rato estúpido.

Depois daquilo voltou à rotina de esfregar, fugir do caminho dos poderosos e escutar às portas. Ouviu dizer que Lorde Tywin marcharia em breve sobre Correrrio. Ou que avançaria para o sul, em direção a Jardim de Cima, pois ninguém esperaria que o fizesse. Que tinha de defender Porto Real, pois Stannis era a maior ameaça. Que mandara Gregor Clegane e Vargo Hoat destruir Roose Bolton, tirando assim o punhal de suas costas. Que enviara corvos para o Ninho da Águia, pois pretendia casar-se com a Senhora Lysa Arryn e conquistar o Vale. Que comprara uma tonelada de prata, a fim de forjar espadas mágicas que matariam os lobos Stark. Que escrevera à Senhora Stark para fazer a paz, e que o Regicida seria libertado em breve.

Embora os corvos partissem e chegassem todos os dias, o próprio Lorde Tywin passava a maior parte de seus dias atrás de portas fechadas com seu conselho de guerra. Arya vislumbrou-o algumas vezes, mas sempre de longe… Uma vez, caminhando pelas muralhas na companhia de três meistres e do gordo cativo com o bigode cerrado; outra, saindo a cavalo com os senhores seus vassalos para visitar os acampamentos; mas, na maior parte das vezes, numa arcada da galeria coberta, observando os treinos dos homens no pátio abaixo. Ficava em pé, com ambas as mãos fechadas sobre o copo de ouro de sua espada longa. Dizia-se que Lorde Tywin amava o ouro acima de tudo; Arya ouviu um escudeiro gracejar que até cagava ouro. Lorde Lannister tinha um aspecto forte para um velho, com rígidas suíças douradas e uma cabeça calva. Havia algo no seu rosto que fazia Arya lembrar-se de seu pai, embora não se parecessem em nada. Tem uma cara de senhor, é só isso, disse a si mesma. Lembrava-se de ouvir a senhora sua mãe dizer ao pai para envergar a cara de senhor e ir tratar de algum assunto. O pai ria daquilo. Arya não conseguia imaginar Lorde Tywin rindo de qualquer coisa.

Uma tarde, enquanto esperava sua vez de tirar um balde de água do poço, ouviu os eixos do portão oriental gemendo. Um grupo de homens montados entrou a trote sob a porta levadiça. Quando viu a manticora rastejando no escudo do chefe, sentiu-se trespassada por uma punhalada de ódio.

À luz do dia, Sor Amory Lorch parecia menos assustador do que parecera à luz dos archotes, mas ainda possuía os olhos de porco de que recordava. Uma das mulheres disse que seus homens tinham rodeado o lago por completo, perseguindo Beric Dondarrion e matando rebeldes. Nós não éramos rebeldes, Arya pensou. Éramos a Patrulha da Noite; e a Patrulha da Noite não toma partido. Mas Sor Amory tinha menos homens do que ela recordava, e muitos vinham feridos. Espero que os ferimentos gangrenem. Espero que morram todos.

Então, viu os três que seguiam perto do fim da coluna.

Rorge tinha colocado um meio-elmo negro com uma larga proteção de nariz em ferro que tornava difícil ver que não tinha nariz. Dentadas seguia pesadamente ao seu lado, num corcel de batalha que parecia prestes a cair sob seu peso. Queimaduras meio curadas cobriam seu corpo, tornando-o ainda mais hediondo do que já era.

Mas Jaqen H’ghar ainda sorria. Seu traje ainda estava esfarrapado e imundo, mas arranjara algum tempo para se lavar e escovar o cabelo, que escorria por seus ombros, vermelho, branco e brilhante, e Arya ouviu as moças soltando risadinhas de admiração umas com as outras.

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