Passou o resto do dia esfregando degraus no interior da Torre dos Gemidos. Ao cair da noite, tinha as mãos em carne viva e sangrando, e os braços tão doloridos que tremiam enquanto levava o balde de volta ao porão. Cansada demais até para a comida, Arya pediu desculpa a Weese e enfiou-se na palha para dormir.
– Weese – bocejou. – Dunsen, Chiswyck, Polliver, Raff, o Querido, Cócegas e Cão de Caça. Sor Gregor, Sor Amory, Sor Ilyn, Sor Meryn, Rei Joffrey, Rainha Cersei – pensou em adicionar mais três nomes à sua prece, mas estava cansada demais para decidir naquela noite.
Arya sonhava com lobos correndo, livres, pelos bosques, quando uma mão forte caiu sobre sua boca como uma pedra suave e morna, sólida e inflexível. Acordou de imediato, contorcendo-se e lutando.
– Uma menina não diz nada – sussurrou uma voz, bem perto de sua orelha. – Uma menina fica com os lábios fechados, ninguém escuta, e amigos podem conversar em segredo. Sim?
Com o coração aos saltos, Arya conseguiu fazer o mais minúsculo dos acenos.
Jaqen H’ghar afastou a mão. A cave estava negra como breu, e ela não conseguia ver seu rosto, mesmo estando a poucos centímetros dele. Mas conseguia
– Um menino transforma-se numa menina – murmurou.
–
– Um homem vê. Um homem sabe.
Arya lembrou-se de que o odiava.
– Assustou-me. Agora é um
– Um homem paga as suas dívidas. Um homem tem três.
– Três?
– O Deus Vermelho tem as suas obrigações, querida menina, e só a morte pode pagar pela vida. Esta menina roubou três que eram dele. Esta menina deve dar três para o lugar das que roubou. Diga os nomes, e um homem fará o resto.
– Leve-me para Correrrio, não é longe, se roubássemos alguns cavalos podíamos…
Ele pôs um dedo sobre seus lábios.
– Três vidas terá de mim. Nada mais, nada menos. Três e estamos pagos. Por isso, uma menina tem de refletir – ele beijou suavemente seu cabelo. – Mas não durante muito tempo.
Quando Arya acendeu seu toco de vela, dele só restava um tênue odor, uma lufada de gengibre e cravo que pairava no ar. A mulher no nicho seguinte revirou-se na palha, queixando-se da luz, e Arya apagou a vela com um sopro. Quando fechou os olhos, viu rostos nadando na sua frente. Joffrey e a mãe, Ilyn Payne, Meryn Trant e Sandor Clegane… Mas estavam em Porto Real, a centenas de milhas de distância, e Sor Gregor permanecera ali apenas algumas noites antes de partir para mais pilhagem, levando consigo Raff, Chiswyck e Cócegas. Mas Sor Amory Lorch encontrava-se ali, e ela o odiava quase tanto quanto à Montanha. Não odiava? Não estava segura. E havia sempre Weese.
Voltou a pensar nele na manhã seguinte, quando a falta de sono a fez bocejar.
– Doninha – Weese ronronou –, da próxima vez que vir essa boca abrir, puxo sua língua para fora e a dou para minha cadela comer – ele torceu sua orelha entre os dedos para se certificar de que ela ouvia, e disse-lhe para voltar para os degraus, que os queria limpos até o terceiro patamar quando a noite caísse.
Enquanto trabalhava, Arya pensou nas pessoas que queria ver mortas. Fingiu que conseguia ver seus rostos nos degraus, e esfregou com mais força para se ver livre deles. Os Stark estavam em guerra com os Lannister, e ela era uma Stark, portanto, devia matar tantos Lannister quanto pudesse, era isso que se fazia nas guerras. Mas não lhe parecia que pudesse confiar em Jaqen.
No dia seguinte e no outro evitou Jaqen H’ghar. Não era difícil. Era muito pequena e Harrenhal muito grande, cheio de lugares onde um rato podia se esconder.