Duas noites mais tarde, ele a mandou até o Salão das Casernas para servir a mesa. Transportava um jarro de vinho e servia-o, quando vislumbrou Jaqen H’ghar à mesa, do outro lado da fila onde estava. Mordendo um lábio, Arya olhou em volta com cautela, a fim de se certificar de que Weese não estava por perto.
Deu um passo, e outro, e a cada um sentia-se menos como um rato. Abriu caminho até o banco, enchendo taças de vinho. Rorge estava sentado à direita de Jaqen, completamente bêbado, mas não reparou nela. Arya inclinou-se para perto e sussurrou “Chiswyck” bem na orelha de Jaqen. O lorathiano não deu qualquer sinal de ter ouvido.
Quando o jarro ficou vazio, Arya correu para as caves a fim de enchê-lo de novo com vinho tirado do barril, e voltou depressa ao serviço. Ninguém tinha morrido de sede enquanto estivera fora do salão, e nem sequer notado sua breve ausência.
Nada aconteceu no dia seguinte, nem no outro, mas no terceiro Arya foi às cozinhas com Weese buscar o jantar.
– Um dos homens da Montanha caiu de um andaime ontem à noite e partiu seu pescoço de imbecil – ouviu Weese dizer a uma cozinheira.
– Bêbado? – a mulher perguntou.
– Não mais do que de costume. Há quem diga que foi o fantasma de Harren que o atirou de lá de cima – e bufou para mostrar o que
Catelyn
O local de reunião era uma extensão coberta de relva e semeada de cogumelos cinza-claros e de tocos recentes de árvores abatidas.
– Somos os primeiros a chegar, senhora – disse Hallis Mollen quando refrearam os cavalos por entre os tocos, sós entre os dois exércitos. A bandeira do lobo gigante da Casa Stark ondulava e batia no topo da lança que ele transportava. Dali, Catelyn não via o mar, mas era capaz de sentir sua proximidade. O cheiro de sal era forte no vento que soprava do leste.
Os pelotões de abastecimento de Stannis Baratheon tinham derrubado as árvores para as suas torres de cerco e catapultas. Catelyn perguntou a si mesma quanto tempo o bosque teria estado ali, e se Ned teria descansado naquele lugar quando levara sua tropa para o sul, a fim de quebrar o último cerco a Ponta Tempestade. Conquistara uma grande vitória naquele dia, maior ainda por não ter havido derramamento de sangue.
– Esta luta não é nossa, senhora – tinha dito Sor Wendel Manderly. – Eu sei que o rei não desejaria que a mãe se pusesse em risco.
– Estamos todos em risco – ela lhe respondeu, talvez com rispidez em excesso. – Acredita que desejo estar aqui, sor? –
Atrás de campos encharcados pela chuva e de elevações pedregosas, conseguia-se ver o grande castelo de Ponta Tempestade erguendo-se para o céu, com as costas voltadas para o mar invisível. Sob aquela massa de pedra cinza-clara, o exército sitiante de Stannis Baratheon parecia tão pequeno e insignificante como ratos com bandeiras.
As canções diziam que o castelo de Ponta Tempestade tinha sido erguido nos tempos antigos por Durran, o primeiro Rei da Tempestade, que conquistara o amor da bela Elenei, filha do deus do mar e da deusa do vento. Na noite de seu casamento, Elenei entregara a virgindade a um amor mortal, e assim condenara-se a uma morte de mortal, e os desgostosos pais tinham libertado sua ira e mandado os ventos e as águas para demolir a fortaleza de Durran. Os amigos, irmãos e convidados do casamento foram esmagados sob as muralhas que desmoronavam ou atirados ao mar, mas Elenei abrigou Durran em seus braços, ele não se feriu, e quando por fim a alvorada chegou, ele declarou guerra aos deuses e jurou reconstruir Ponta Tempestade.