– Ouviu falar do pássaro? – Bran perguntou. O outro rapaz fez que sim com a cabeça. – Não foi um jantar, como você disse. Foi uma carta de Robb, e não a comemos, mas…

– Às vezes, os sonhos verdes tomam estranhas formas – Jojen admitiu. – A verdade que contêm nem sempre é fácil de compreender.

– Conte-me a coisa ruim que sonhou – Bran pediu. – A coisa ruim que vem a caminho de Winterfell.

– O senhor meu príncipe agora acredita em mim? Vai confiar em minhas palavras, por mais estranhas que pareçam aos seus ouvidos?

Bran assentiu com um aceno.

– O que vem a caminho é o mar.

– O mar?

– Sonhei que o mar ondulava ao redor de Winterfell. Vi ondas negras esmagando-se contra os portões e as torres, e depois a água salgada entrou por cima das muralhas e encheu o castelo. Homens afogados boiavam no pátio. Quando sonhei o sonho pela primeira vez, ainda na Água Cinzenta, não conhecia seus rostos, mas agora conheço. Aquele Alebelly é um deles, o guarda que gritou os nossos nomes no banquete. Seu septão é outro. O ferreiro também.

– Mikken? – Bran sentia-se tão confuso quanto consternado. – Mas o mar fica a centenas e centenas de milhas daqui, e as muralhas de Winterfell são tão altas que a água não poderia entrar, mesmo se viesse.

– Na calada da noite, o mar salgado fluirá sobre essas muralhas – Jojen insistiu. – Vi os mortos, inchados e afogados.

– Temos de contar para eles – Bran retrucou. – Para todos, Alebelly, Mikken e Septão Chayle. Contar para que eles não se afoguem.

– Isso não os salvará – respondeu o rapaz vestido de verde.

Meera veio até o banco da janela e pôs uma mão no ombro de Bran.

– Eles não acreditarão, Bran. Não acreditarão mais do que você.

Jojen sentou-se na cama.

– Conte-me o que você sonhou.

Bran sentia-se assustado, mesmo agora, mas tinha jurado confiar neles, e um Stark de Winterfell mantém a palavra dada.

– Há vários tipos de sonhos – ele disse lentamente. – Há os sonhos de lobo; esses não são tão ruins quanto os outros. Corro, caço e mato esquilos. E há sonhos em que o corvo vem e me diz para voar. Às vezes, a árvore também está nesses sonhos, chamando meu nome. Isso me assusta. Mas os piores sonhos são quando caio – olhou para baixo, para o pátio, sentindo-se infeliz. – Antes nunca caía. Quando escalava. Ia a todos os lados, pelos telhados e ao longo das paredes, costumava dar comida aos corvos na Torre Queimada. Minha mãe tinha medo de que eu caísse, mas eu sabia que nunca cairia. Só que caí, e agora, quando durmo, caio sempre.

Meera deu um apertão em seu ombro.

– É tudo?

– Acho que sim.

Warg – Jojen Reed disse.

Bran olhou para ele, com os olhos dilatados.

– O quê?

Warg. Transmorfo. Lobisomem. É como o chamarão, se alguma vez ouvirem falar dos sonhos de lobo.

Os nomes deixaram-no de novo com medo.

Quem me chamará disso?

– Seu próprio povo. Com medo. Alguns vão odiá-lo se souberem o que é. Alguns tentarão até mesmo matá-lo.

A Velha Ama às vezes contava histórias assustadoras sobre lobisomens e transmorfos. Nas histórias, eles eram sempre malignos.

– Eu não sou assim – Bran protestou. – Não sou. São só sonhos.

– Os sonhos de lobo não são sonhos de verdade. Seu olho está bem fechado sempre que está acordado, mas, quando adormece, ele abre, e sua alma procura sua outra metade. O poder é forte em você.

– Não o quero. Quero ser um cavaleiro.

– Um cavaleiro é o que você quer ser. Um warg é o que você é. Não pode mudar isso, Bran, não pode negar ou deixar para lá. É o lobo alado, mas nunca voará – Jojen levantou-se e caminhou até a janela. – A não ser que abra o seu olho – juntou dois dedos e bateu na testa de Bran, com força.

Quando levou a mão ao local, Bran sentiu apenas a pele lisa e contínua. Não havia nenhum olho, nem mesmo um olho fechado.

– Como posso abri-lo se não está aí?

– Nunca vai encontrar o olho com os dedos, Bran. Você deve procurá-lo com o coração – Jojen estudou o rosto de Bran com aqueles estranhos olhos verdes. – Ou será que tem medo?

– Meistre Luwin diz que não existe nada nos sonhos que um homem deva temer.

– Existe, sim – Jojen discordou.

– O quê?

– O passado. O futuro. A verdade.

Os irmãos o deixaram mais desnorteado que nunca. Quando ficou sozinho, Bran tentou abrir o terceiro olho, mas não sabia como. Por mais que enrugasse a testa e nela espetasse os dedos, não via de modo diferente do que antes. Nos dias que se seguiram, tentou prevenir os outros a respeito do que Jojen tinha dito, mas as coisas não correram como pretendia. Mikken achou a história engraçada.

– O mar, é? Acontece que sempre quis ver o mar. Mas nunca fui a um lugar onde pudesse fazer isso. Então ele vem até mim, é? Os deuses são bons para se incomodarem tanto com um pobre ferreiro.

– Os deuses vão me levar quando acharem adequado – Septão Chayle disse calmamente. – Embora pense ser pouco provável que me afogue, Bran. Cresci nas margens do Faca Branca, sabe? Sou um nadador bastante bom.

Перейти на страницу:

Поиск

Нет соединения с сервером, попробуйте зайти чуть позже