– Tenho de ir buscar água para o Senhor Comandante.
– Então vá – disse o guarda. – E rápido – aninhado no interior do manto branco, com o capuz erguido contra o vento, o homem nem o olhou para ver se trazia um balde.
Jon deslizou de lado entre duas estacas afiadas, enquanto Fantasma se esgueirava por baixo delas. Uma tocha tinha sido atirada para dentro de uma fenda, e suas chamas flamejavam como bandeiras de um tom laranja claro quando as rajadas de vento sopravam. Jon pegou-a enquanto se encolhia pela fenda entre as pedras. Fantasma desceu o monte correndo. Jon seguiu-o mais devagar, com a tocha erguida à frente enquanto descia. Os sons do acampamento desvaneceram-se às suas costas. A noite estava negra, e a encosta era íngreme, pedregosa e irregular. Uma desatenção momentânea seria o jeito certo de quebrar um tornozelo… ou o pescoço.
As árvores erguiam-se por baixo, guerreiros com armaduras de casca e folha, alinhados em suas fileiras silenciosas à espera da ordem de atacar o monte. Pareciam negras… Era só quando a luz da tocha por elas passava que Jon vislumbrava um clarão de verde. Tenuemente, ouvia o som de água fluindo sobre rochas. Fantasma desapareceu na vegetação rasteira. Jon lutou para segui-lo, escutando o chamado do riacho, os suspiros das folhas ao vento. Raminhos agarraram-se ao seu manto, enquanto por cima de sua cabeça galhos mais grossos se entrelaçavam e escondiam as estrelas.
Encontrou Fantasma bebendo do riacho
–
Seguiu-o, zangado, segurando baixo a tocha, para conseguir ver as pedras que ameaçavam fazê-lo tropeçar a cada passo, as espessas raízes que pareciam se agarrar aos seus pés, os buracos onde um homem podia torcer o tornozelo. A cada par de metros voltava a chamar por Fantasma, mas o vento noturno rodopiava por entre as árvores e engolia as palavras.
Perseguiu o lobo por um quarto de hora ao redor do Punho antes de voltar a perdê-lo de vista. Por fim, parou para recuperar o fôlego em meio aos arbustos, espinheiros e pedras tombadas no sopé do monte. Para lá da luz da tocha, a escuridão apertava-se.
Um som suave, como o de algo sendo arranhado, fez com que ele se virasse. Andou na direção do som, pondo os pés com cuidado entre pedregulhos e espinheiros. Atrás de uma árvore caída, voltou a encontrar Fantasma. O lobo gigante cavava furiosamente, arremessando terra para todos os lados.
– O que encontrou? – Jon abaixou a tocha, e a luz lhe revelou um montículo arredondado de terra mole.
Jon se ajoelhou e espetou a tocha na terra a seu lado. A terra era solta, arenosa. Ele começou a cavar com as mãos. Não havia pedras nem raízes. O que quer que ali estivesse, tinha sido lá colocado recentemente. Meio metro mais abaixo, seus dedos tocaram em tecido. Esperara encontrar um cadáver, temera encontrá-lo, mas aquilo era outra coisa. Fez força contra o tecido e sentiu por baixo formas pequenas e duras, que não cediam. Não havia nenhum cheiro, nenhum sinal de vermes. Fantasma recuou e se sentou, observando.
Jon sacudiu a terra solta, revelando uma trouxa arredondada com cerca de meio metro de diâmetro. Enfiou os dedos pelas beiradas e conseguiu soltá-la. Quando a puxou, o que quer que estivesse lá dentro deslocou-se e tiniu.
Um pedaço de corda gasta atava a trouxa. Jon desembainhou o punhal e a cortou, procurou cuidadosamente as extremidades do tecido e puxou. A trouxa se abriu, e seu conteúdo espalhou-se no chão, cintilando, escuro e brilhante. Viu uma dúzia de facas, pontas de lança em forma de folha, numerosas pontas de flecha. Jon pegou uma lâmina de punhal, leve como uma pena e de um negro brilhante, sem cabo. A luz da tocha correu ao longo de seu gume, uma fina linha laranja que indicava algo afiado como uma navalha.