Tyrion prosseguiu na direção da casa de Chataya, mas de repente a resignação o abandonou. Virou-se na sela, perscrutando a rua atrás de si. Não havia sinal de perseguidores. Todas as janelas estavam escuras ou com as venezianas bem fechadas. Nada ouviu além do vento que passava pelas vielas.
– Que se dane tudo isso – resmungou. Estava farto de cuidados. Obrigando o cavalo a se virar, esporeou-o com força.
Ao bater com força no portão, ouviu a música que pairava, tênue, sobre os espigões que coroavam os muros de pedra. Um dos ibbeneses o conduziu pela propriedade.
– Quem é aquele? – as vidraças em forma de diamante das janelas do salão brilhavam com a luz amarela, e Tyrion ouvia um homem cantando.
O ibbenês encolheu os ombros.
– Cantor barrigudo.
O som foi se intensificando à medida que Tyrion se afastava do estábulo onde deixara o cavalo e se aproximava da casa. Nunca gostara de cantores, e, mesmo antes de vê-lo, gostava daquele ainda menos do que da raça como um todo. Quando empurrou a porta, o homem interrompeu-se.
– Senhor Mão – ajoelhou, mostrando a careca incipiente e a barriga de tacho, murmurando: – Uma honra, uma honra.
– Senhor – Shae sorriu ao vê-lo. Gostava daquele sorriso, e da forma rápida e irrefletida com que vinha ao seu lindo rosto. A garota usava o roupão de seda roxa, preso com um cinturão de fio de prata. As cores favoreciam seu cabelo escuro e a cor creme da pele lisa.
– Querida – disse-lhe. – E quem é este?
O cantor levantou os olhos.
– Chamam-me de Symon Língua de Prata, senhor. Ator, cantor, contador de histórias…
– E um grande idiota – Tyrion terminou. – Como foi que me chamou, quando entrei?
– Chamar? Eu só… – a prata na língua de Symon parecia ter se transformado em chumbo. – Senhor Mão, eu disse, uma honra…
– Um homem mais sensato teria fingido não me reconhecer. Não que eu tivesse me deixado enganar, mas você devia ter tentado. Que vou fazer agora com você? Sabe da minha querida Shae, sabe onde ela mora, sabe que a visito à noite sozinho.
– Juro, não direi a ninguém…
– Pelo menos nisso concordamos. Boa noite – Tyrion subiu as escadas com Shae.
– Meu cantor pode agora nunca mais cantar – ela brincou. – Tirou a voz dele com o susto.
– Um pouco de medo pode ajudá-lo a atingir aquelas notas agudas.
Ela fechou a porta do quarto.
– Não vai lhe fazer mal, não é? – Shae acendeu uma vela perfumada e ajoelhou-se para tirar suas botas. – Suas canções alegram-me nas noites em que você não vem.
– Bem que gostaria de poder vir todas as noites – ele disse enquanto ela esfregava seus pés nus. – Ele canta bem?
– Melhor do que alguns. Não tão bem quanto outros.
Tyrion abriu seu roupão e enterrou o rosto entre seus seios. Ela sempre cheirava limpa, mesmo naquela pocilga fedorenta de cidade.
– Fique com ele, se quiser, mas mantenha-o por perto. Não o quero vagueando pela cidade e espalhando histórias pelas casas de pasto.
– Ele não… – ela começou.
Tyrion cobriu sua boca com um beijo. Estava farto de conversas; precisava da doce simplicidade do prazer que encontrava entre as coxas de Shae. Ali, pelo menos, era bem-vindo, desejado.
Mais tarde, puxou o braço de debaixo da cabeça dela, enfiou-se na túnica e desceu ao jardim. Uma meia-lua prateava as folhas das árvores frutíferas e brilhava na superfície da piscina para banhos esculpida em pedra. Tyrion sentou-se junto à água. Em algum lugar, à sua direita, um grilo cantava, um som curiosamente acolhedor.
Uma lufada de alguma coisa malcheirosa fez Tyrion virar a cabeça. Shae estava à porta, por trás dele, vestida com o roupão prateado que lhe dera.
– Lorde Varys veio vê-lo – Shae anunciou.
O irmão mendicante a olhou, piscando os olhos, espantado. Tyrion soltou uma gargalhada.
– Com certeza. Como foi que o reconheceu e eu não?
Shae encolheu os ombros.
– É ele mesmo assim. Só que vestido de outra forma.
– Um visual diferente, um cheiro diferente, uma maneira diferente de caminhar – Tyrion observou. – A maior parte dos homens se enganaria.