– Sim, patrulhas. Duas vezes por dia, se for possível. A Muralha propriamente dita é um obstáculo formidável. Sem defesa, não pode pará-los, mas pode atrasá-los. Quanto maior for a tropa, de mais tempo precisarão. Julgando pelo vazio que deixaram para trás, devem ter a intenção de levar as mulheres consigo. E também os jovens, e os animais… Alguma vez viu uma cabra subir uma escada de mão? Ou uma corda? Vão ter de construir uma escada com degraus, ou uma grande rampa… Vai lhes tomar pelo menos uma volta de lua, talvez mais tempo. Mance deve saber que sua melhor chance é passar por baixo da Muralha. Por um portão, ou…

– Uma brecha.

A cabeça de Mormont ergueu-se num movimento vivo.

– O quê?

– Eles não pretendem escalar a Muralha nem escavar por baixo dela, senhor. Planejam quebrá-la.

– A Muralha tem duzentos metros de altura e é tão espessa na base, que seriam necessários cem homens durante um ano para abrir caminho com picaretas e machados.

– Mesmo assim.

Mormont afagou a barba, franzindo a testa:

– Como?

– Como haveria de ser? Feitiçaria – Qhorin arrancou metade do ovo com uma mordida. – Por qual outro motivo Mance teria decidido reunir suas forças nas Presas de Gelo? É um lugar ermo e duro, e é uma longa e cansativa marcha de lá até a Muralha.

– Eu tinha esperança de que ele tivesse escolhido as montanhas para esconder sua reunião dos olhos de meus patrulheiros.

– Talvez – Qhorin respondeu, acabando de comer o ovo. – Mas parece-me que há mais. Ele procura algo nos lugares elevados e frios. Anda atrás de alguma coisa que lhe faz falta.

– Alguma coisa? – o corvo de Mormont ergueu a cabeça e soltou um guincho. O som soou aguçado como uma faca no acanhamento da tenda.

– Algum poder. O que será, nosso prisioneiro não soube nos dizer. Talvez tenha sido interrogado com demasiada intensidade, e morreu deixando muito por contar. De qualquer forma, duvido que soubesse.

Jon conseguia ouvir o vento lá fora. Fazia um som agudo enquanto tremia por entre as pedras da muralha circular e puxava com força as cordas da tenda. Mormont esfregou pensativamente a boca.

– Algum poder – repetiu. – Tenho de saber o que é.

– Então deve enviar batedores para as montanhas.

– Estou relutante em arriscar mais homens.

– Só podemos morrer. Por que motivo vestimos estes mantos negros, se não for para morrer em defesa do reino? Eu enviaria quinze homens, em três grupos de cinco. Um para sondar o Guadeleite, outro ao Passo dos Guinchos, e outro para subir a Escada do Gigante. Jarman Buckell, Thoren Smallwood e eu ao comando. Para investigar o que espera naquelas montanhas.

Espera”, gritou o corvo. “Espera.”

O Senhor Comandante Mormont soltou um suspiro profundo:

– Não vejo outra escolha – concedeu –, mas se não retornar…

– Alguém descerá das Presas de Gelo, senhor – disse o patrulheiro. – Se formos nós, tudo estará ótimo. Se não, será Mance Rayder, e o senhor está bem no caminho dele. Ele não pode marchar para sul deixando-o para trás, para que o siga e atormente sua retaguarda. Tem de atacar. E este é um lugar forte.

– Não é tão forte assim – Mormont observou.

– Então é possível que morramos todos. Nossa morte irá ganhar tempo para os nossos irmãos na Muralha. Tempo para guarnecer os castelos vazios e congelar os portões, a fim de convocar senhores e reis para virem em seu auxílio, tempo para afiarem os machados e repararem as catapultas. Nossas vidas serão moedas bem gastas.

Morre”, resmungou o corvo, percorrendo os ombros de Mormont. “Morre, morre, morre, morre.” O Velho Urso ficou sentado, dobrado e silencioso, como se o fardo de falar tivesse se tornado pesado demais para que o suportasse. Mas, por fim, disse:

– Que os deuses me perdoem. Escolha os seus homens.

Qhorin Meia-Mão virou a cabeça. Seus olhos encontraram os de Jon e prenderam-se neles durante um longo momento.

– Muito bem. Escolho Jon Snow.

Mormont pestanejou:

– Ele é pouco mais do que um rapaz. E, além disso, é meu intendente. Nem sequer é patrulheiro.

– Tollett também pode cuidar do senhor – Qhorin ergueu sua mão mutilada, com apenas dois dedos. – Os deuses antigos ainda são fortes para lá da Muralha. Os deuses dos Primeiros Homens… e dos Stark.

Mormont olhou para Jon:

– Qual é a sua vontade nisto?

– Ir – Jon respondeu de imediato.

O velho deu um sorriso triste:

– Foi o que achei que seria.

A alvorada já tinha rompido quando Jon saiu da tenda ao lado de Qhorin Meia-Mão. O vento rodopiava em volta deles, agitando os mantos negros e fazendo voar da fogueira uma chuva de fagulhas vermelhas.

– Partimos ao meio-dia – disse-lhe o patrulheiro. – É melhor que encontre esse seu lobo.

Tyrion

–A rainha pretende mandar o Príncipe Tommen para longe – estavam ajoelhados, sozinhos, na escuridão calma do septo, rodeados por sombras e velas tremeluzentes, mas mesmo assim Lancel mantinha a voz baixa. – Lorde Gyles irá levá-lo para Rosby e escondê-lo lá, disfarçado de pajem. Planejam escurecer seu cabelo e dizer a todo mundo que é filho de um pequeno cavaleiro.

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