– E a maior parte das mulheres também, provavelmente. Mas não as prostitutas. Uma prostituta aprende a ver o homem, não seu traje, caso contrário acaba morta numa viela.

Varys fez uma expressão de dor, que não era devida às falsas feridas que tinha nos pés. Tyrion soltou um risinho.

– Shae, traga-nos um pouco de vinho? – podia precisar de uma bebida. O que quer que tivesse trazido o eunuco ali na calada da noite não devia ser boa coisa.

– Quase temo contar o motivo por que vim, senhor – Varys disse, quando Shae saiu. – Trago notícias terríveis.

– Devia se vestir de penas negras, Varys, é de tão mau agouro como um corvo – desajeitadamente, Tyrion ficou de pé, meio receoso de fazer a pergunta seguinte. – É Jaime? – se lhe fizeram mal, nada os salvará.

– Não, senhor. É outro assunto. Sor Cortnay Penrose está morto. Ponta Tempestade abriu os portões a Stannis Baratheon.

A consternação varreu todos os outros pensamentos da mente de Tyrion. Quando Shae retornou com o vinho, ele bebeu um gole e arremessou a taça contra a parede da casa, fazendo-a explodir. Shae levantou uma mão para se proteger dos cacos enquanto o vinho escorria pelas pedras em longos dedos, negros à luz do luar.

Maldito seja! – Tyrion esbravejou.

Varys sorriu, mostrando uma boca cheia de dentes podres.

– Quem, senhor? Sor Cortnay ou Lorde Stannis?

– Os dois – Ponta Tempestade era forte, devia ter sido capaz de resistir durante meio ano ou mais… Tempo suficiente para seu pai acabar com Robb Stark. – Como foi que isso aconteceu?

Varys olhou de relance para Shae.

– Senhor, temos de perturbar o sono de sua doce senhora com uma conversa tão sombria e sangrenta?

– Uma senhora poderia ter medo – disse Shae –, mas eu não tenho.

– Deveria ter – disse-lhe Tyrion. – Com a queda de Ponta Tempestade, Stannis virará em breve a atenção para Porto Real – agora lamentava ter atirado longe aquele vinho. – Lorde Varys, dê-nos um momento, e eu voltarei com o senhor ao castelo.

– Esperarei nos estábulos – fez uma reverência e afastou-se com passos pesados.

Tyrion puxou Shae para o seu lado.

– Aqui não está segura.

– Tenho meus muros, e os guardas que me deu.

– Mercenários – disse Tyrion. – Gostam bastante do meu ouro, mas morrerão por ele? Quanto a estes muros, um homem podia subir nos ombros de outro e saltá-los num instante. Uma mansão muito parecida com esta foi queimada durante os tumultos. Mataram o ourives que a possuía pelo crime de ter uma despensa cheia, tal como deixaram o Alto Septão em pedaços, estupraram Lollys meia centena de vezes, e esmagaram o crânio de Sor Aron. O que acha que farão se puserem as mãos na senhora da Mão?

– Refere-se à prostituta da Mão? – ela o olhou com aqueles seus grandes olhos corajosos. – Mas gostaria de ser sua senhora, senhor. Vestiria todas as coisas bonitas que me deu, cetim, samito e pano de ouro, e usaria suas joias, pegaria na sua mão e sentaria ao seu lado nos banquetes. Poderia dar-lhe filhos, sei que poderia… e juro que nunca o envergonharia.

Meu amor por você já me envergonha o suficiente.

– Um sonho lindo, Shae. Mas, agora, coloque-o de lado, estou pedindo. Nunca poderá acontecer.

– Por causa da rainha? Também não tenho medo dela.

– Eu tenho.

– Então mate-a e resolva o assunto. Não é como se houvesse algum amor entre vocês.

Tyrion suspirou.

– Ela é minha irmã. O homem que mata seu próprio sangue é para sempre maldito aos olhos dos deuses e dos homens. Além disso, seja o que for que eu e você possamos pensar de Cersei, meu pai e meu irmão gostam dela. Posso conspirar contra qualquer homem nos Sete Reinos, mas os deuses não me equiparam para enfrentar Jaime de espada na mão.

– O Jovem Lobo e Lorde Stannis têm espadas, e não o assustam.

Como você sabe pouco, querida.

– Contra eles tenho todo o poder da Casa Lannister. Contra Jaime ou meu pai, não tenho mais do que umas costas tortas e um par de pernas atrofiadas.

– Tem a mim – Shae o beijou, deslizando os braços em volta de seu pescoço enquanto pressionava o corpo contra o dele.

O beijo o excitou, como sempre acontecia com os beijos dela, mas daquela vez Tyrion libertou-se gentilmente.

– Agora não. Querida, eu tenho… bem, chame de semente de um plano. Acho que posso ser capaz de levá-la para as cozinhas do castelo.

O rosto de Shae ficou imóvel:

– As cozinhas?

– Sim. Se agir através de Varys, ninguém saberá de nada.

Ela soltou um risinho:

– Senhor, eu o envenenaria. Todos os homens que provaram minha comida disseram-me que sou uma excelente prostituta.

– A Fortaleza Vermelha tem cozinheiros suficientes. E açougueiros e padeiros também. Teria de se fazer de ajudante de cozinha.

– Uma lavadora de pratos, vestida de ráfia áspera e marrom. É assim que o senhor quer me ver?

– O senhor quer vê-la viva – Tyrion respondeu. – Dificilmente pode lavar pratos vestida de seda e veludo.

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