O septão entrou com seu incensório de cristal enquanto Catelyn rezava, então ela ficou para a celebração. Não conhecia aquele septão, um jovem zeloso com idade próxima à de Edmure. Desempenhava seu cargo bastante bem, e quando cantava os louvores aos Sete exibia uma voz rica e agradável, mas Catelyn deu por si ansiando pelo tom frágil e trêmulo do Septão Osmynd, morto havia muito tempo. Osmynd teria escutado pacientemente a história do que ela tinha visto e sentido no pavilhão de Renly, e também poderia ter sabido o que aquilo significara, e o que ela tinha de fazer para enterrar as sombras que assombravam seus sonhos. Osmynd, meu pai, tio Brynden, o velho Meistre Kym, sempre pareceram saber tudo, mas agora estou só, e parece que não sei nada, nem sequer qual é o meu dever. Como posso cumprir meu dever se não sei qual é ele?

Os joelhos de Catelyn estavam duros quando se levantou, embora não se sentisse mais sábia. Talvez fosse ao bosque sagrado à noite, e rezasse também aos deuses de Ned. Eram mais velhos do que os Sete.

Lá fora, se deparou com uma canção de um tipo diferente. Rymund, o Rimante, estava sentado junto à cervejaria no centro de uma roda de ouvintes, fazendo ressoar a voz profunda enquanto cantava sobre Lorde Deremond no Prado Sangrento.

E ali estava, de espada na mão,

o último dos dez de Darry…

Brienne parou para ouvir por um momento, com os largos ombros curvados e os grossos braços cruzados sobre o peito. Um bando de garotos esfarrapados passou correndo, berrando e batendo uns nos outros com paus. Por que os garotos gostam tanto de brincar de guerra? Catelyn perguntou a si mesma se Rymund seria a resposta. A voz do cantor cresceu ao aproximar-se do fim da canção.

E rubra a relva sob seus pés

rubra a bandeira que conduz

e rubro o brilho do sol poente

que o banhou em sua luz

“Venham, venham”, grita o grande senhor

“inda há fome em minha espada”

e com um grito de fúria selvagem

foi à ribeira cruzada…

– Lutar é melhor do que essa espera – disse Brienne. – Não nos sentimos tão impotentes quando lutamos. Temos uma espada e um cavalo, às vezes um machado. Quando vestimos armadura, é difícil que alguém nos machuque.

– Os cavaleiros morrem em batalha – Catelyn lembrou-lhe.

Brienne olhou-a com aqueles belos olhos azuis.

– Tal como as senhoras morrem ao dar à luz. Ninguém canta canções sobre elas.

– Os filhos são um tipo diferente de batalha – Catelyn começou a atravessar o pátio. – Uma batalha sem estandartes nem cornos de guerra, mas não menos feroz por isso. Carregar uma criança no ventre, trazê-la ao mundo… sua mãe deve ter lhe falado da dor…

– Nunca conheci minha mãe. Meu pai teve senhoras… uma senhora diferente a cada ano, mas…

– Essas não eram senhoras. Por mais difícil que o nascimento seja, Brienne, o que vem a seguir é ainda mais difícil. Às vezes, sinto-me como se estivesse sendo rasgada ao meio. Bem gostaria que houvesse cinco de mim, uma para cada filho, para que pudesse mantê-los todos a salvo.

– E quem a manteria a salvo, senhora?

O sorriso que deu saiu pálido e cansado.

– Ora, os homens de minha Casa. Pelo menos foi o que minha mãe me ensinou. O senhor meu pai, meu irmão, meu tio, meu esposo, eles vão me manter a salvo… Mas, enquanto estiverem longe, suponho que você terá de ocupar o lugar deles, Brienne.

Brienne inclinou a cabeça:

– Tentarei, senhora.

Mais tarde nesse dia, Meistre Vyman trouxe uma carta. Catelyn o recebeu de imediato, esperando que fosse alguma notícia de Robb, ou de Sor Rodrik em Winterfell, mas descobriu que a mensagem vinha de um tal Lorde Meadows, que se autodenominava castelão de Ponta Tempestade. Estava endereçada ao pai, ao irmão, ao filho “ou a quem quer que tenha a posse de Correrrio”. Sor Cortnay Penrose estava morto, escrevia o homem, e Ponta Tempestade tinha aberto os portões a Stannis Baratheon, o herdeiro legítimo e de direito. A guarnição do castelo jurara as espadas à sua causa, todos e cada um dos homens, e nenhum deles havia sofrido nenhum mal.

– Exceto Cortnay Penrose – murmurou Catelyn. Não conhecera o homem, mas doía-lhe saber de sua morte. – Robb tem de saber disso imediatamente – ela disse. – Sabemos onde ele se encontra?

– Segundo as últimas notícias, marchava para o Despenhadeiro, sede da Casa Westerling – Meistre Vyman respondeu. – Se enviasse um corvo para Cinzamarca, talvez pudessem enviar um correio atrás dele.

– Trate disso.

Catelyn voltou a ler a carta depois de o meistre ter ido embora.

– Lorde Meadows nada diz sobre o bastardo de Robert – confidenciou a Brienne. – Suponho que tenha entregado o garoto com o resto, embora eu deva confessar que não compreendo por que motivo Stannis o deseja tanto.

– Talvez tema a pretensão do garoto.

– A pretensão de um bastardo? Não, é outra coisa… Como é a aparência dessa criança?

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