Varys estava à espera nos estábulos, como havia prometido. O cavalo do eunuco parecia esparavonado e meio morto. Tyrion montou; um dos mercenários abriu os portões. Saíram em silêncio. Que os deuses me ajudem, por que lhe contei a respeito de Tysha?, perguntou a si mesmo, com um medo súbito. Havia alguns segredos que nunca deviam ser verbalizados, algumas vergonhas que um homem devia levar para o túmulo. O que queria dela, perdão? A maneira como o olhara, o que queria dizer? Odiaria tanto assim a ideia de limpar panelas, ou teria sido a sua confissão? Como é que posso lhe contar aquilo e ainda pensar que ela me ama?, disse parte dele, enquanto a outra parte caçoou, dizendo: Anão estúpido, a única coisa que a rameira ama são o ouro e as joias.

Seu cotovelo cicatrizado latejava, rangendo sempre que o cavalo punha um casco no chão. Às vezes, quase conseguia imaginar que ouvia os ossos roçando um no outro lá dentro. Talvez devesse consultar um meistre, obter alguma poção para as dores… Mas, desde que Pycelle tinha revelado o que era, Tyrion desconfiava dos meistres. Só os deuses sabiam com quem andariam conspirando, ou o que teriam misturado naquelas poções que ministravam.

– Varys. Tenho de trazer Shae para o castelo sem que Cersei perceba – fez um esboço rápido de seu plano envolvendo as cozinhas.

Quando terminou, o eunuco soltou um pequeno cacarejo:

– Farei o que o senhor ordenar, naturalmente… Mas devo preveni-lo de que as cozinhas estão cheias de olhos e ouvidos. Mesmo se a garota não cair sob nenhuma suspeita propriamente dita, será alvo de mil perguntas. Onde nasceu? Quem eram seus pais? Como veio para Porto Real? A verdade não servirá, então ela terá de mentir… e mentir, e mentir – olhou de relance para Tyrion. – E uma jovem moça de cozinha tão bonita instigará tanto desejo como curiosidade. Será tocada, beliscada, acariciada e levará tapinhas. Ajudantes de cozinha vão se enfiar sob as suas mantas de noite. Algum cozinheiro solitário pode tentar se casar com ela. Padeiros vão amassar seus seios com mãos cheias de farinha.

– Prefiro que ela seja acariciada a que seja apunhalada – Tyrion respondeu.

Varys avançou mais alguns passos, e disse:

– Pode haver outra maneira. Acontece que a aia que serve a filha da Senhora Tanda tem andado surrupiando suas joias. Se eu informasse a Senhora Tanda disso, ela seria forçada a despedir imediatamente a moça. E a filha precisaria de uma nova aia.

– Entendo – Tyrion compreendeu de imediato que aquilo abria possibilidades. Uma criada de quarto de uma senhora usava roupas melhores do que uma ajudante de cozinha, e frequentemente até exibia uma ou duas joias. Shae devia ficar contente com isso. E Cersei achava a Senhora Tanda entediante e histérica, e Lollys, uma bovina imbecil. Não era provável que lhes fizesse visitas de cortesia.

– Lollys é tímida e confia nas pessoas – Varys acrescentou. – Acreditará em qualquer história que lhe seja contada. Desde que sua virgindade foi roubada pelos populares, ela tem medo de sair de seus aposentos, portanto, Shae permanecerá fora de vista… mas convenientemente próxima, caso você tenha necessidade de consolo.

– Sabe tão bem como eu que a Torre da Mão está vigiada. Cersei certamente ficaria curiosa se a aia de Lollys começasse a me visitar.

– Eu talvez consiga introduzir a moça em seu quarto sem ser vista. A casa de Chataya não é a única a ter uma porta escondida.

– Um acesso secreto? Aos meus aposentos? – Tyrion sentia-se mais aborrecido do que surpreso. Por que motivo teria Maegor, o Cruel, ordenado a morte de todos os construtores que tinham trabalhado em seu castelo, se não fosse para proteger tais segredos? – Sim, suponho que teria de existir. Onde posso encontrar a porta? No aposento privado? No quarto de dormir?

– Meu amigo, não quer me obrigar a revelar todos os meus pequenos segredos, não é?

– De hoje em diante, pense neles como os nossos pequenos segredos, Varys – Tyrion olhou de soslaio o eunuco em seu fedido traje de saltimbanco. – Partindo do princípio de que você está do meu lado…

– Consegue duvidar disso?

– Ora, não, confio tacitamente em você – uma gargalhada amarga ecoou das janelas fechadas. – Na verdade, confio em você como se fosse do meu sangue. Agora conte-me como morreu Cortnay Penrose.

– Dizem que se atirou de uma torre.

– Que se atirou? Não, não vou acreditar nisso.

– Os guardas não viram ninguém entrando em seus aposentos, nem encontraram ninguém lá dentro depois da queda.

– Então o assassino entrou mais cedo e se escondeu debaixo da cama – sugeriu Tyrion. – Ou desceu do telhado por uma corda. Talvez os guardas estejam mentindo. Quem poderá dizer que não cometeram eles mesmos o ato?

– Sem dúvida, tem razão, senhor.

O tom cheio de si do eunuco dizia outra coisa.

– Mas você tem outra opinião? Como teria acontecido então?

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