Durante um longo momento Varys nada disse. O único som que se ouvia era o solene clac que os cascos faziam no pavimento. Por fim, o eunuco pigarreou:

– Senhor, acredita nos antigos poderes?

– Fala de magia? – Tyrion perguntou com impaciência, fungando. – Feitiços de sangue, maldições, metamorfismo, esse tipo de coisa? Quer sugerir que Sor Cortnay foi enfeitiçado até a morte?

– Sor Cortnay tinha desafiado Lorde Stannis para um combate singular na manhã do dia em que morreu. Pergunto: será este o ato de um homem perdido em desespero? Depois, há a questão do assassinato misterioso e muito fortuito de Lorde Renly, precisamente no momento em que suas linhas de batalha estavam se formando para varrer o irmão do campo – o eunuco fez uma pausa momentânea. – Senhor, uma vez perguntou-me de que modo fui cortado.

– Lembro-me disso. Não quis falar do assunto.

– E continuo a não querer, mas… – aquela pausa foi mais longa do que a anterior, e quando Varys voltou a falar sua voz estava de algum modo diferente. – Era um órfão, aprendiz numa trupe errante. Nosso mestre possuía um barco pesqueiro pequeno e largo, e viajávamos de um lado para o outro ao longo do mar estreito, atuando em todas as Cidades Livres e, de tempos em tempos, em Vilavelha e Porto Real. Um dia, em Myr, um certo homem foi ao nosso espetáculo. Quando terminou, fez uma oferta por mim que meu mestre achou tentadora demais para recusar. Fiquei aterrorizado. Temi que o homem pretendesse me usar como ouvira dizer que os homens usavam garotinhos, mas, na verdade, a única parte de mim que ele queria era meu órgão viril. Deu-me uma poção que me deixou incapaz de me movimentar ou de falar, mas nada fez para adormecer meus sentidos. Com uma longa lâmina em forma de gancho cortou-me raiz e caule, sem parar de entoar cânticos. Vi-o queimar meus órgãos masculinos num braseiro. As chamas ficaram azuis, e ouvi uma voz responder ao seu chamado, embora não compreendesse as palavras que foram ditas. Quando ele acabou de fazer o que queria comigo, os pantomimeiros tinham zarpado. Depois de servir aos seus propósitos, o homem já não tinha interesse em mim, e botou-me na rua. Quando lhe perguntei o que devia fazer então, ele respondeu que achava que devia morrer. Para contrariá-lo, decidi viver. Mendiguei, roubei e vendi as partes do corpo que ainda me restavam. Em pouco tempo tornei-me um ladrão tão bom como qualquer outro de Myr, e quando cresci aprendi que muitas vezes o conteúdo das cartas de um homem é mais valioso do que o conteúdo de sua bolsa. Mas ainda sonho com aquela noite, senhor. Não com o feiticeiro, nem com a lâmina, nem mesmo com o modo como meu membro viril contraiu-se enquanto ardia. Sonho com a voz. A voz saída das chamas. Seria um deus, um demônio, um truque qualquer de ilusionista? Não sei lhe dizer, e olhe que conheço todos os truques. Tudo o que sei com toda certeza é que o homem chamou a coisa, e ela respondeu, e desde esse dia odiei a magia e todos aqueles que a praticam. Se Lorde Stannis for um desses homens, desejo vê-lo morto.

Quando terminou de falar, cavalgaram em silêncio durante algum tempo. Por fim, Tyrion disse:

– Uma história pungente. Lamento.

O eunuco suspirou.

– Lamenta, mas não acredita em mim. Não, senhor, não é necessário pedir perdão. Eu estava drogado e com dores, e tudo se passou há muito tempo e num lugar distante, do outro lado do mar. Sem dúvida que sonhei aquela voz. Disse isso a mim mesmo mil vezes.

– Eu acredito em espadas de aço, moedas de ouro e na inteligência dos homens – Tyrion respondeu. – E acredito que um dia existiram dragões. Afinal de contas, vi seus crânios.

– Esperemos que essa seja a pior coisa que veja, senhor.

– Nisso concordamos – Tyrion sorriu. – E quanto à morte de Sor Cortnay, bem, sabemos que Stannis contratou mercenários das Cidades Livres. Talvez também tenha comprado um assassino habilidoso.

– Um assassino muito habilidoso.

– Há homens assim. Costumava sonhar que um dia seria suficientemente rico para enviar um Homem Sem Rosto contra minha querida irmã.

– Independentemente do modo como Sor Cortnay morreu, está morto, e o castelo caiu. Stannis está livre para marchar.

– Temos alguma chance de convencer os homens de Dorne a cair sobre a Marca?

– Nenhuma.

– É uma pena. Bem, a ameaça pode pelo menos servir para manter os senhores da Marca perto de seus castelos. Que novidades há de meu pai?

– Se Lorde Tywin conseguiu atravessar o Ramo Vermelho, nenhuma notícia nesse sentido me chegou ainda. Se não se apressar, pode ficar encurralado entre os inimigos. A folha dos Oakheart e a árvore dos Rowan foram vistas a norte do Vago.

– Não há notícias de Mindinho?

– Talvez não tenha chegado a Ponteamarga. Ou talvez tenha morrido lá. Lorde Tarly tornou-se senhor das reservas de Renly e passou muitos pela espada; em especial gente dos Florent. Lorde Caswell trancou-se em seu castelo.

Tyrion atirou a cabeça para trás e estourou em gargalhadas.

Varys puxou as rédeas do cavalo, perplexo.

– Senhor?

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