Com Olho Vermelho acordado, não se atrevia a voltar para a cama. Sem saber onde mais se esconder, dirigiu-se ao bosque sagrado. Gostava do cheiro forte dos pinheiros e sentinelas, de sentir o mato e a terra entre os dedos dos pés, e do som que o vento fazia nas folhas. Um pequeno riacho meandrava lentamente pelo bosque, e havia um local onde a água tinha escavado o solo por baixo de uma árvore caída.
Ali, sob madeira em apodrecimento e galhos torcidos e lascados, encontrou a espada que tinha escondido.
Gendry era teimoso demais para lhe fabricar uma espada, portanto, ela mesma tinha feito uma, arrancando as cerdas de uma vassoura. A lâmina era muito mais leve do que devia ser, e não tinha um punho propriamente dito, mas Arya gostava da extremidade irregular e lascada. Sempre que tinha uma hora livre, esgueirava-se para lá e dedicava-se aos exercícios que Syrio tinha lhe ensinado, movendo-se descalça sobre as folhas caídas, golpeando galhos e lançando estocadas nas folhas. Às vezes até subia nas árvores e dançava entre os ramos superiores, agarrando-se a eles com os dedos dos pés enquanto se deslocava para cá e para lá, vacilando um pouco menos a cada dia, à medida que o equilíbrio ia voltando. A noite era a melhor hora; nunca ninguém a incomodava à noite.
Arya subiu. Lá em cima, no reino das folhas, desembainhou a espada e durante algum tempo esqueceu-se de todos, tanto de Sor Amory como dos Saltimbancos e dos homens do pai, perdendo-se na sensação de madeira áspera debaixo das solas dos pés e no
Enfiando a espada no cinto, deslizou de galho em galho até voltar ao chão. A luz da lua pintava os ramos do represeiro de um branco prateado quando se encaminhou em sua direção, mas as folhas vermelhas de cinco pontas estavam enegrecidas pela noite. Arya encarou o rosto esculpido no tronco. Era terrível, com a boca retorcida e os olhos flamejantes e cheios de ódio. Seria aquele o aspecto de um deus? Poderiam os deuses ser feridos, como as pessoas?
Arya ficou de joelhos. Não tinha certeza de como começar. Juntou as mãos.
Seria suficiente? Talvez devesse rezar em voz alta se quisesse que os velhos deuses ouvissem. Ou talvez por mais tempo. Recordava que às vezes o pai rezava durante muito tempo. Mas os velhos deuses nunca o ajudaram. Lembrar-se disso a deixou zangada.
– Devia tê-lo salvado – ralhou com a árvore. – Ele rezava para você o tempo todo. Não me importa se me ajuda ou não. Não me parece que possa, mesmo se quisesse.
– Não se faz troça dos deuses, menina.
A voz a sobressaltou. Ficou de pé com um salto e puxou a espada de madeira. Jaqen H’ghar estava tão imóvel na escuridão que parecia ser uma das árvores.
– Um homem vem ouvir um nome. Um e dois, e depois vem o três. Um homem quer acabar.
Arya apontou a ponta lascada ao chão.
– Como é que sabia que eu estava aqui?
– Um homem vê. Um homem ouve. Um homem sabe.
Ela o olhou com suspeita. Teria sido enviado pelos deuses?
– Como fez com que o cão matasse Weese? Conjurou Rorge e Dentadas do inferno? Jaqen H’ghar é o seu nome verdadeiro?
– Alguns homens têm muitos nomes. Doninha. Arry.
Ela recuou até ficar encostada à árvore-coração.
– Gendry contou?
– Um homem sabe – ele repetiu. – Minha senhora de Stark.
Talvez os deuses o
– Preciso que me ajude a tirar aqueles homens das masmorras. Aquele Glover e os outros, todos eles. Temos de matar os guardas e de alguma maneira abrir a cela…
– Uma menina esquece – ele disse calmamente. – Dois já obteve, três eram devidos. Se um guarda tem de morrer, só tem de dizer seu nome.