– Mas
Ele a olhou sem piedade.
– Três vidas foram arrebatadas a um deus. Três vidas têm de ser pagas. Não se faz troça dos deuses – sua voz era de seda e aço.
– Eu não trocei – Arya pensou por um momento. – O nome… posso dizer o nome de
Jaqen H’ghar inclinou a cabeça.
– Um homem já disse.
– Qualquer pessoa? – repetiu. – Um homem, uma mulher, um bebê, ou Lorde Tywin, o Alto Septão ou seu pai?
– O antepassado de um homem está morto há muito tempo, mas se vivesse, e se dissesse o seu nome, morreria às suas ordens.
– Jura! – Arya dava uma ordem. – Jura pelos deuses.
– Por todos os deuses do mar e do ar, e mesmo pelo do fogo, juro – Jaqen pousou uma mão na boca do represeiro. – Pelos sete novos deuses e pelos deuses antigos sem conta, juro.
– Mesmo se eu nomeasse o rei…
– Diga o nome, e a morte virá. Amanhã, na volta da lua, de hoje a um ano, virá. Um homem não voa como um pássaro, mas um pé se move, e depois outro, e um dia um homem está lá, e um rei morre – ajoelhou-se ao lado dela, para que ficassem cara a cara. – Uma menina segreda, se tem medo de falar em voz alta. Segreda agora. É
Arya encostou os lábios à sua orelha.
– É
Nem mesmo no celeiro em chamas, com paredes de fogo a rodeá-lo por todos os lados e ele acorrentado, tinha parecido tão perturbado como agora.
– Uma menina… ela brinca.
– Jurou. Os deuses ouviram-no jurar.
– Os deuses ouviram – de repente surgiu uma faca na sua mão, com uma lâmina fina como o mindinho de Arya. Não saberia dizer se se destinava a ela ou a ele. – Uma menina irá chorar. Uma menina irá perder seu único amigo.
– Você não é meu amigo. Um amigo
O sorriso de Jaqen surgiu e desapareceu.
– Uma menina poderia… dizer então outro nome, se um amigo ajudasse?
– Uma menina poderia. Se um amigo ajudasse.
A faca desapareceu.
– Vem.
– Agora? – nunca pensou que ele fosse agir tão depressa.
– Um homem ouve o murmúrio da areia numa ampulheta. Um homem não dormirá até que uma menina desdiga um certo nome. Já, criança malvada.
Apesar da hora, Harrenhal agitava-se com uma vida irregular. A chegada de Vargo Hoat tinha destruído todas as rotinas. Carros de bois, bois e cavalos tinham desaparecido do pátio, mas a jaula do urso ainda se encontrava lá. Havia sido pendurada do arco da ponte que separava o pátio exterior do interior, suspensa por pesadas correntes, a alguns centímetros do chão. Um anel de archotes banhava a área de luz. Alguns dos cavalariços estavam atirando pedras para fazer o urso rugir e rosnar. Do outro lado do pátio derramava-se luz pela porta do Salão das Casernas, acompanhada pelo ruído de canecas e por homens exigindo mais vinho. Uma dúzia de vozes começou a cantar uma canção numa língua gutural estranha aos ouvidos de Arya.
– Esta noite os deuses famintos terão um banquete de sangue, se um homem fizer isso – disse Jaqen. – Querida menina, bondosa e gentil. Desdiga um nome, e diga outro, e atire para longe esse sonho louco.
– Não.
– Que seja – ele parecia resignado. – A coisa será feita, mas uma menina tem de obedecer. Um homem não tem tempo para conversas.
– Uma menina obedecerá – Arya concordou. – O que devo fazer?
– Uma centena de homens têm fome, devem ser alimentados, o senhor exige caldo de carne quente. Uma menina tem de correr às cozinhas e dizer ao seu garoto das tortas.
– Caldo de carne – ela repetiu. – Onde vai estar?
– Uma menina vai ajudar a fazer caldo de carne e vai esperar nas cozinhas até que um homem venha até ela. Vá. Corra.