– Isto é cheiro de cebola?
– E onde está o pão?
– Porra, precisamos de tigelas, taças, colheres…
– Não precisam, não – Rorge despejou o caldo pelando em cheio no rosto dos guardas. Jaqen H’ghar fez o mesmo. Dentadas também atirou as caldeiras, fazendo-as girar por baixo dos braços para que rodopiassem masmorra afora, fazendo chover sopa. Uma delas atingiu o capitão nas têmporas quando ele tentou se levantar. Caiu como um saco de areia e ficou imóvel. Os outros gritavam de agonia, rezavam, ou tentavam escapar.
Arya encostou-se à parede quando Rorge começou a cortar gargantas. Dentadas preferia agarrar os homens pela nuca e pelo queixo e quebrar seus pescoços com uma única torção das suas enormes mãos pálidas. Só um dos guardas conseguiu puxar uma lâmina. Jaqen afastou-se dançando de sua estocada, desembainhou a espada, encurralou o homem num canto com uma saraivada de golpes, e o matou com uma estocada no coração. O lorathiano trouxe a lâmina para Arya, ainda vermelha com sangue quente, e a limpou na parte da frente de sua roupa.
– Uma menina deve ficar ensanguentada também. Isto é obra dela.
A chave da cela pendia de um gancho na parede por cima da mesa. Rorge a pegou e abriu a cela. O primeiro homem a passar foi o senhor vestido com capa e cota de malha.
– Muito bem. Sou Robett Glover.
– Senhor – Jaqen fez-lhe uma reverência.
Depois de libertados, os prisioneiros tiraram dos guardas mortos suas armas e correram degraus acima com aço na mão. Os outros aglomeraram-se, de mãos vazias, atrás deles. Subiram rápido e quase sem uma palavra. Nenhum deles parecia tão ferido como quando Vargo Hoat os fizera atravessar os portões de Harrenhal.
– Usar a sopa foi engenhoso –o homem chamado Glover estava dizendo. – Não esperava por isso. Foi ideia de Lorde Hoat?
Rorge desatou a rir. Riu tanto, que escorreu ranho do buraco onde antes estivera seu nariz. Dentadas sentou-se em cima de um dos mortos, segurando uma mão flácida enquanto roía os dedos. Ossos estalaram entre seus dentes.
– Quem são vocês? – uma ruga surgiu entre as sobrancelhas de Robett Glover. – Não estavam com Hoat quando ele veio ao acampamento de Lorde Bolton. Pertencem aos Bravos Companheiros?
Rorge limpou o ranho do queixo com as costas da mão:
– Agora pertencemos.
– Este homem tem a honra de ser Jaqen H’ghar, antigamente da Cidade Livre de Lorath. Os descorteses companheiros desse homem chamam-se Rorge e Dentadas. Um senhor saberá qual deles é o Dentadas – indicou Arya com uma mão. – E ali…
– Chamo-me Doninha – ela o interrompeu, antes que pudesse dizer quem
Viu que Glover não lhe dava importância.
– Muito bem – ele disse. – Ponhamos fim a este assunto maldito.
Quando voltaram a subir a escada em caracol, encontraram os guardas da porta jazendo em poças de seu próprio sangue. Nortenhos corriam pelo pátio. Arya ouviu gritos. A Porta do Salão da Caserna abriu-se de rompante e um homem ferido saiu, cambaleando e gritando. Outros três correram atrás dele e silenciaram-no com lanças e espadas. Também se lutava em volta da guarita. Rorge e Dentadas correram com Glover, mas Jaqen H’ghar ajoelhou ao lado de Arya.
– Uma menina não compreende?
– Compreendo, sim – ela respondeu, embora não fosse verdade, não por completo.
O lorathiano deve ter visto isso em seu rosto.
– Uma cabra não tem lealdade. Em breve um estandarte de lobo será erguido aqui, acho. Mas primeiro um homem quer ouvir desdizer certo nome.
– Retiro o nome – Arya mordeu o lábio. – Ainda tenho uma terceira morte?
– Uma menina é gananciosa – Jaqen tocou um dos guardas mortos e mostrou seus dedos ensanguentados. – Aqui estão três, e ali, quatro, e mais oito estão mortos embaixo. A dívida está paga.
– A dívida está paga – Arya concordou com relutância. Sentiu-se um pouco triste. Agora era de novo apenas um rato.
– Um deus tem o que lhe é devido. E agora um homem deve morrer – um estranho sorriso tocou os lábios de Jaqen H’ghar.
–
– Preciso. Meu tempo chegou ao fim – Jaqen passou uma mão sobre o rosto, da testa ao queixo, e por onde a mão passou ele
A boca de Arya escancarou-se:
– Quem é
Ele sorriu, revelando um cintilante dente de ouro:
– Não é mais difícil do que adotar um novo nome, se se souber como.
– Mostre-me – ela exclamou. – Também quero fazer isso.
– Se quiser aprender, tem de vir comigo.
Arya ficou hesitante.
– Para onde?
– Para longe, para lá do mar estreito.