Uma longa mesa de pedra enchia a sala. Por cima flutuava um coração humano, inchado e azul de podridão, mas ainda vivo. Batia, numa profunda e solene palpitação, e cada batida gerava um banho de luz cor de índigo. As silhuetas que rodeavam a mesa não eram mais do que sombras azuis. Enquanto Dany caminhava até a cadeira vazia na ponta da mesa, elas não se agitaram, nem falaram, nem se viraram para ela. Não havia nenhum som, a não ser o lento e profundo batimento do coração em putrefação.

Mãe de dragões… soou uma voz, em parte sussurro, em parte gemido… dragões… dragões… dragões… ecoaram outras vozes nas sombras. Algumas eram masculinas e outras femininas. Uma falava com o timbre de uma criança. O coração flutuante pulsava entre as sombras e as trevas. Era difícil convocar a vontade de falar, recordar as palavras que tinha treinado com tanta assiduidade.

– Sou Daenerys Filha da Tormenta, da Casa Targaryen, Rainha dos Sete Reinos de Westeros – vão me ouvir? Por que não se mexem? Sentou-se, fechando as mãos no colo. – Concedam-me seus conselhos, e falem-me com a sabedoria daqueles que conquistaram a morte.

Através da névoa pintada de índigo conseguia distinguir os traços mirrados do Imortal sentado à sua direita, um homem muito, muito velho, enrugado e sem cabelo. Sua pele tinha um vivo tom violeta-azulado, os lábios e as unhas eram ainda mais azuis, tão escuros que eram quase negros. Até o branco dos olhos era azul. Fitavam, sem ver, a mulher antiga que se encontrava do lado oposto da mesa, cujo vestido de seda clara tinha apodrecido em seu corpo. Um seio murcho havia sido deixado nu, à moda qartena, e mostrava um pontiagudo mamilo azul, duro como couro.

Ela não respira. Dany escutou o silêncio. Nenhum deles respira, e não se mexem, e aqueles olhos não veem nada. Será possível que os Imortais estejam mortos?

A resposta foi um suspiro tão fino como um bigode de rato. … Nós vivemos… vivemos… vivemos… disse o suspiro. Uma miríade de outras vozes sussurraram ecos. … e sabemos… sabemos… sabemos… sabemos

– Vim em busca do dom da verdade – disse Dany. – No longo corredor, as coisas que vi… foram visões verdadeiras, ou mentiras? Coisas passadas ou coisas por vir? O que significavam?

… A forma das sombras… amanhãs ainda não feitos… beba da taça de gelo… beba da taça de fogo…

… Mãe de dragões… filha de três…

– Três? – ela não compreendia.

Três cabeças tem o dragão… gemeu o coro fantasmagórico dentro de sua cabeça, sem que nunca um lábio se movesse, nunca um sopro agitasse o ar azul e parado. … Mãe de dragões… filha da tormenta… Os sussurros se transformaram numa canção turbilhonante. … Três fogueiras tem de acender… uma pela vida, uma pela morte e uma pelo amor… Seu coração batia em uníssono com aquele que flutuava na sua frente, azul e putrefato. … Três montarias tem de montar… uma para o sexo, uma para o terror e uma para o amor… Percebeu que as vozes se tornavam mais sonoras, e parecia-lhe que seu coração abrandava, o mesmo acontecendo com a respiração… Três traições conhecerá… uma vez por sangue, uma vez por ouro e uma vez por amor

– Eu não… – sua voz não era mais do que um sussurro, quase tão tênue como os deles. O que se passava consigo mesma? – Eu não compreendo – disse, mais alto. Por que era tão difícil falar ali? – Ajudem-me. Mostrem-me.

Ajudá-la… zombaram os suspiros. … Mostrar-lhe

Перейти на страницу:

Поиск

Нет соединения с сервером, попробуйте зайти чуть позже