Sob as árvores negras estava mais escuro do que tinha imaginado, e o trajeto era mais longo. Embora o caminho parecesse seguir reto da rua até a porta do palácio, Pyat Pree logo fez uma curva. Quando o interrogou, o mago apenas disse:
– A porta da frente leva à entrada, mas não leva nunca à saída. Escute as minhas palavras, minha rainha. A Casa dos Imortais não foi feita para mortais. Se dá valor à sua alma, tenha cuidado e faça exatamente o que eu lhe disser.
– Farei o que disser – ela prometeu.
– Quando entrar, vai se encontrar numa sala com quatro portas: aquela que atravessou e mais três. Escolha a da direita. Se chegar a uma escada, suba. Nunca desça e nunca escolha nenhuma porta a não ser a primeira à sua direita.
– A porta à minha direita. Entendo. E quando sair, é o oposto?
– De modo algum – Pyat Pree a alertou. – Entrar ou sair é a mesma coisa. Sempre para cima. Sempre a porta à sua direita. Outras portas podem se abrir para a senhora. Lá dentro, verá muitas coisas que a perturbarão. Visões adoráveis, e de horror, maravilhas e terrores. Imagens e sons de dias passados, dias por vir e outros que nunca aconteceram. Habitantes e servidores poderão falar com a senhora à medida que avançar. Responda-lhes, ou os ignore, como quiser, mas não
– Compreendo.
– Quando chegar à sala dos Imortais, seja paciente. Nossas pequenas vidas são para eles nada mais do que a batida de uma asa de mariposa. Escute com atenção, e grave cada palavra em seu coração.
Quando chegaram à porta, uma boca alta e oval, aberta numa parede esculpida para se parecer com um rosto humano, o menor anão que Dany já tinha visto a esperava na soleira. Não era mais alto do que seu joelho, com a cara chupada e pontiaguda, semelhante a um focinho, mas trajava um delicado traje roxo e azul, e suas minúsculas mãos cor-de-rosa seguravam uma bandeja de prata. Nela pousava um esguio copo de cristal cheio de um líquido espesso e azul:
– Pegue-o e beba – disse-lhe Pyat Pree.
– Vai deixar meus lábios azuis?
– Um copo servirá apenas para destapar seus ouvidos e dissolver a membrana que cobre seus olhos, para que possa ver e ouvir as verdades que lhe serão mostradas.
Dany levou o copo aos lábios. O gosto do primeiro gole era muito ruim, de tinta e carne estragada, mas quando o engoliu pareceu ganhar vida dentro de si. Conseguia sentir gavinhas espalhando-se por seu peito, como dedos de fogo enrolando-se no coração, e na língua ficou um sabor que era como mel, anis e creme, como leite materno e o sêmen de Drogo, como carne crua, sangue quente e ouro derretido. Era todos os sabores que já tinha experimentado e nenhum deles… e então o copo ficou vazio.
– Agora pode entrar – disse o mago. Dany colocou o copo de volta no tabuleiro do criado e entrou.
Viu-se num átrio de pedra com quatro portas, uma em cada parede. Sem sequer hesitar, dirigiu-se à porta da direita e a atravessou. A segunda sala era gêmea da primeira. De novo se virou para a porta da direita. Quando a abriu, deparou-se com mais uma pequena antecâmara com quatro portas.
A quarta sala já não era quadrada, mas oval, e tinha paredes de madeira comida pelas traças, em vez de paredes de pedra. No lugar de quatro, as passagens que dela saíam eram seis. Dany escolheu a da direita e penetrou num corredor longo, sombrio e de teto alto. Ao longo do lado direito havia uma fileira de archotes que ardiam com uma fumacenta luz alaranjada, mas as únicas portas estavam à sua esquerda. Drogon abriu grandes asas negras e bateu o ar parado. Voou seis metros antes de cair indignamente com um barulho surdo. Dany seguiu atrás dele.
O tapete roído pelo mofo sob seus pés um dia tinha sido esplendorosamente colorido, e no tecido ainda se viam volutas de ouro, cintilando, quebradas, por entre o cinza desbotado e o verde manchado. O que restava servia para abafar seus passos, mas isso não era inteiramente bom. Dany conseguia ouvir sons dentro das paredes, um tênue ruído de corrida e arranhadas que a fez pensar em ratazanas. Drogon também os ouvia. A cabeça movia-se enquanto seguia os sons, e quando pararam soltou um grito irritado. Outros sons, ainda mais perturbadores, passavam através das portas fechadas. Uma delas estremeceu e soltou um estrondo, como se alguém estivesse tentando arrombá-la. De outra vinha um dissonante toque de flauta que fez o dragão abanar violentamente a cauda de um lado para o outro. Dany apressou-se em seguir adiante.
Nem todas as portas estavam fechadas.